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A Origem

Existem vários tipos de bolo. Os mais saborosos são aqueles de várias camadas. Onde se aprecia cada nuance de textura e sabor. Os afoitos ficam impressionados com a cobertura e até lambem-na com sofreguidão. Outros vibram com a beleza plástica do confeito.

Alguns mastigam rapidamente, pois é muito gostoso. Raros são aqueles que demoram em cada pedacinho, atentos aos detalhes. E mais raros ainda são os que tentam lembrar retrospectivamente de cada ingrediente ali colocado. E a exceção é quando a pessoa une o bolo às suas próprias vivências e fundem-no com seus desejos e prazeres. O filme que assisti é assim. Em camadas e interpretações. Um bolo bem arquitetado e até certo ponto, de fácil compreensão.

O didatismo do filme, em que mostra a necessidade de um sonhador experiente para invadir o sono de outrem, aliado ao arquiteto, que faz o ambiente, é ótimo. Assim, o grande público pode acompanhar os delírios oníricos e imagens sensacionais do diretor Nolan, que mostra ser capaz de brilhar tanto na reflexão como na ação. O protagonista é Di Caprio, atualmente um ator maduro, firme, e seguro. Até que enfim! Até sua beleza feminina consegue torná-lo verossímil. Ele está durão, sofrido e dual.

O plano é policial. Em vez de roubar um segredo, inserir uma idéia. A observação acerca de como essa idéia cresce e torna-se quase que uma obsessão no sujeito interceptado é muito coerente. Acredito que Freud ficaria feliz ao ver demonstrado que o sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente. As delicadas regrinhas, tais como ter um totem – leia Jung- à mão (objeto pequeno, pesado, somente manuseado pelo dono) para saber se o momento é real ou sonhado. Ou a necessidade de um “salto” para despertar de cada camada. Ou a existência de uma região chamada limbo, e até a presença arquetípica de sua esposa, contrapondo suas ações. Tudo é muito bem orquestrado.

Desde o nome dos personagens, ou Ariadne não é nada? Ou a escolha do totem dela é aleatória? Não, meus queridos. O filme inteiro conspira para você entrar dentro dele e participar. Olhando de maneira quase voyeurística o sonho deles e podendo escolher o seu no final.

Cada etapa reflete uma sensação corporal do sonhador envolvido. Repare bem na vestimenta dos filhos do casal, e até na aliança que ele usa. Faça uma retroação visual para os momentos de ação em Mombaça. Principalmente naquela parede estreita. Tente lembrar do texto que se refere às pessoas idosas sedadas e em sonho profundo. Nada é gratuito.

O final é maravilhoso. Uma carrapeta girando. Comprei semelhante, no Nepal. Um encontro tão sonhado. E será que não ficou perfeitinho demais? Tudo certo como dois e dois são cinco? Cabe a nós escolher o caminho, pois Nolan sonhou tão bem que nos envolveu também!

O que há de bom: as imagens intrincadas e o roteiro vindo de uma idéia complexa ser destrinchado de maneira simples
O que há de ruim: não sei dizer, talvez a duração do filme, eu queira mais
O que prestar atenção: ah, tudo! O filme desfia imagens reveladoras e a capacidade de continuidade é fantástica, a coordenação de cada despertar é obra prima de câmera, até o gestual de cada personagem reflete bem como ele é na vida real e sonho e até varia de acordo com o sonhador…
A cena do filme: todas que se repetem, pois são a chave para adentrar mais profundamente no enredo e seus segredos, tais como as crianças brincando, o diálogo entre o velho e o novo e a ausência ou não do totem

Cotação: filme excelente (@@@@@)

Obs.: assista-o de maneira calma e relaxada, aproveite cada instante e grave-o, depois refaça tudo novamente e reveja – agora com olhos detetivescos – uns meses depois.

* Você que e fã do C.O.B.R.A, agora pode interagir com ele através do Orkut.
Clique no link: http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=660313573257370709

C.O.B.R.A

cobra@oquerola.com

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2 comentários para “A Origem”

  1. Fabíolla disse:

    Excelente crítica. Excelente filme.

  2. Mann, o velho. disse:

    Excelente crítica, meu velho.

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