Meu Ódio Será sua Herança
![]()
Esse é um filme que faz parte da seleção dos “Clássicos do COBRA”.
Se existe poesia na violência, na morte combalida, no tiroteio de sangue efêmero, Sam Peckinpah conseguiu retratar. Em 1969 assistimos a um filme que em vez de glorificar o velho oeste, mostra a sua decadência, o seu ponto de mutação. Vivido em 1913, data em que meu pai nasceu, dois escorpiões lutam contra centenas de formigas, na cena inicial.
Uma tropa de soldados (?!) irá assaltar um banco. Eles são esperados, e a troca de tiros é sanguinária e cruel. Muitos morrem de ambos os lados. E isso demonstra claramente que o filme não tem mocinhos e nem bandidos. Apenas dois homens de lados opostos. São eles: Pike e Thornton, respectivamente interpretados pelos míticos William Holden e Robert Ryan, com suas caras vincadas, sofridos, envelhecidos pelo tempo seco das fronteiras humanas da ética combalida pelos anos cheios de tiros, traições, trapaças, tropas, tudo.
O Pike comanda um bando de assaltantes, uns bobos que riem de tudo, bebem desbragadamente e acasalam com prostitutas mexicanas como se “barranqueassem” uma mula. Por falar em mulheres elas nem nome têm, levam tirambaços no peito do mesmo modo que os homens. Machista? Violento? Nem sei.
O Thornton o persegue. Seu “time” é composto por uma escória ainda pior. Ladrões de cadáveres, abutres da miséria humana. Ele ardentemente deseja estar do lado de Pike. Mas não o faz. O conceito de ética destes homens é tão rígido e simultaneamente idiossincrático que não os permite trocar de lado. Ainda que as faces sejam iguais das duas pistolas.
No meio da fuga está um bandoleiro mexicano que se intitula “general”. Patético em sua liderança alavancada pelo medo e nunca pelo exemplo. Ridículo com sua misoginia perversa de se aproveitar das mulheres enviuvadas pela luta constante da sobrevivência. Ele deseja armas para lutar contra os “Villa”, liderados por Pancho, lembre-se; estamos à beira da Revolução Mexicana. O grupo de Pike irá assaltar um trem.
A sequência do assalto surpreende ainda mais do que a saraivada de tiros inicial. O plano é completo, a fuga estratégica, as abordagens rápidas e corretas. Nem é preciso dizer que a câmera de Peckinpah é sublime de tão ousada e visceral.
No final um “xicano” do bando de Pike precisa ser resgatado. Excelente a ponta feita por Ernest Borgnine que é o amigo sincero e conselheiro de Pike.
Eles sabem que o destino será implacável, mas avançam. Não conseguem agir de outra maneira. E neste instante em que caem como moscas ao som da metralhadora e revólveres, outro mundo vem surgindo. De sapatos em vez de botas, de carros ao invés de cavalos e de bundões em troca de homens.
O que há de bom: ineditismo de violência com um tratamento cinematográfico de primeira, além de dois atores “velhos” e durões como nunca
O que há de ruim: muitos criticam essa gratuidade e avalanche de mortes, mas não vêem que atrás disso há uma árdua crítica de costumes
O que prestar atenção: o Ford T, a metralhadora Gatling ou seria uma M1917 Browning(?) a pistola automática M1911, são sinais incontestes de modernidade
A cena do filme: além dos escorpiões do começo e a cavalgada de entrada, eu fico entusiasmado com os quatro em câmera lenta entrando no vilarejo de Água Verde para o embate final
Cotação: filme ótimo (@@@@)
* Você que e fã do C.O.B.R.A, agora pode interagir com ele através do Orkut.
Clique no link: http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=660313573257370709
C.O.B.R.A
cobra@oquerola.com
Tags: cinema, críticas, meu ódio será sua herança


