Turandot
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Novamente estou no cinema para ver e ouvir uma ópera. Puccini. Esta é uma das mais emblemáticas obras dele – apesar de ter morrido antes de terminá-la- e a ária “Nessum Dorma” está no rol dos momentos imperdíveis daqueles que apreciam o bel canto. É uma obra dividida em três atos. Filmada no Metropolitan Opera de Nova Iorque ( O “Met”), faz parte de uma campanha onde várias outras obras estão à disposição dos pobres mortais - que como eu – só de quando em vez podem ver algo assim, tão magnífico.
Duas observações: o som da sala deve ser impecável. E a interpretação dos principais cantores pode ser analisada do ponto-de-vista de seu afinamento e voz (coisa que entendo pouco) e a presença no palco, nos levando a emoções diversas de acordo com o libreto.
O príncipe Calàf está apaixonado pela princesa chinesa Turandot. Esta é fria, inacessível e manda matar todos aqueles que a desejam desposar. A única chance dele é responder corretamente as três perguntas que ela invariavelmente faz. As árias iniciais do primeiro ato são boas, mas a voz e a presença engessada de Marcelo Giordani que mais parece um padeiro vestindo uma roupa um número menor é apenas passável. E a ária que ele se sai melhor é “Non Piangere Liù”.
O figurino pesadão não me apetece. Contudo a belíssima e sensual Marina Poplavskaya que vive uma Liù apaixonada, entregue apenas a um sorriso, me toca, tanto que sua ária “Signora Ascolta” que precede a fala de Calàf é a melhor do primeiro ato. E suas roupas e cabelo não ocultam a beleza russa classuda e angulosa de seu rosto e corpo. Diferente de Maria Guleghina que está quase deformada com aquele vestido azul, imenso e cheios de brocados de mau-gosto que certamente qualquer carnavalesco brasileiro faria infinitamente mais leve e belo.
Entretanto se você fechar os olhos durante o debate entre Turandot e Calàf, com as perguntas e respostas, a voz quente de Maria Guleghina o dominará por completo. Ela é uma soprano que impressiona vivamente e quando a vi em “Tosca”, por muito pouco não roubei as orquídeas que enfeitavam o corredor e dei a ela, no Royal Opera House no Covent Garden em 1995 e entreguei a maravilha de fato, que era ela!
No segundo ato eu fico mais encantado com os solos e intervenções acaloradas dos três ministros, Ping, Pang e Pong do que com o resto. E observo que os mesmos são substituídos por bailarinos na sequência. Ping – que significa paz, em mandarim – é a melhor voz masculina do teatro. Ele é um barítono maravilhoso. Não irei discorrer se prefiro barítonos a tenores, seria trucidado se dissesse algo a mais sobre isto.
Agora chega o tão esperado final, em que ela depois de se desesperar ao ver Calàf respondendo todas as suas perguntas, deixa de interpretar de maneira técnica pra tornar-se uma Turandot apaixonada. Confesso que quando Giordani finaliza “Nessun Dorma” com aqueles três “Vincerò, vincerò, vincerò!”, eu arrepio e vibro. É bonito demais…
Sim, o final parece não encaixar direito na história. Açucarado demais para um Puccini que como em Madama Butterfly e Tosca já mostrou que seus personagens não são tão “certinhos” assim. Um duo correto, mas sem emoção, apenas na fala dela em resposta ao pai quando lhe pergunta o nome dele. Pois se ela assim o sabe, ele morrerá.
O que há de bom: Ópera, italiana e no Met, não tem como não ser boa
O que há de ruim: o figurino e a direção de Zefirelli estão mais ligados a uma imagem antiquada do que a modernidade que vi em “Madama Butterfly”
O que prestar atenção: habitualmente os baixos quase não têm vez, mas Puccini é hábil ao colocar o papel do Rei Timur com esta voz e aqui o Samuel Ramey que está anos luz de distância do Giordano como cantor e ator
A cena do filme: Vincerò, Vincerò, Vincerò! Não tem jeito… né?
Cotação: filme ótimo(@@@@)
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C.O.B.R.A
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