Flor do Deserto
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Imagine você prometida para casar, aos 12 anos de idade, com um sujeito de 60 anos e será a quarta esposa do mesmo. O que faria? Atravessaria um deserto inteiro, sofreria assédio brutal, rasgaria seus pés e depois disso tudo seria exportada como mão de obra barata para a Inglaterra? E lá chegando permaneceria analfabeta e serviçal, apesar da indiscutível e inocultável beleza física?
Waris Dirie tem essa história de vida. Saindo do chifre da África, de um dos países mais pobres do mundo, a Somália, ela sobrevive e se destaca. As cenas de perseguição quase canina, dela com a funcionária de um magazine, é de uma inocência angelical.
Outro destaque é a abordagem sutil, do fotógrafo famoso, na lanchonete onde ela trabalha. O discreto gesto do livro é muito significativo.
Seu convívio no minúsculo apartamento alugado, o vizinho ignorante (quem disse que ingleses não podem ser incultos e grosseiros?) a proprietária exploradora, um submundo que os brasileiros que moram de favor e são tratados como gado, tanto na América como na Europa estão cansados de ver, aqui incomoda.
Incomoda porque numa noite qualquer de procura de diversão ela encontra alguém com quem simpatiza. E dele foge. E ao chegar em casa choca-se ao ver a amiga acasalando com um parceiro fruto de um encontro fortuito. Aqui o viés impressionante da vida dessa modelo famosa internacionalmente toma conta da tela. Ela revela o seu segredo corporal.
Foi vítima de uma cirurgia chamada infibulação, que conheço e garanto-lhes que é mais cruel do que se pode verificar in loco. Consiste na retirada dos pequenos lábios, dos grandes e do clitóris, na mais tenra idade. Depois costurado com espinhos. Fica um pequeno orifício, algo como um palito de fósforo, para poder sair – com dificuldades – o sangue menstrual.
Modelo famosa, explorada por sua agente que a vê como apenas mais um cabide de roupas, aliais é como são vistas as modelos, por 90% das pessoas que lidam profissionalmente com este rincão infindável da exploração da mulher e seus dois mitos cruéis: a beleza e a eterna juventude.
O filme finaliza com uma declaração, algo sério, quase documental. E a atriz que a interpreta é tão bela como ela.
O que há de bom: uma história real que revela um universo ainda machista e tribal que não tem nada de religioso ou cultural, apenas dominação
O que há de ruim: a tendência da mídia em transformar tudo que é profundo e reflexivo em “novelão”
O que prestar atenção: os estereótipos atuais da beleza ocidental são todos africanos (lábios grossos, mamas fartas, magreza longilínea, quadril pronunciado) exceto a cor da pele
A cena do filme: quando ela se desnuda
Cotação: filme bom (@@@)
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C.O.B.R.A
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Tags: cinema, críticas, flor do deserto


