A PASSEIO

a-passeioA capa chama a atenção pelo tom árido da aquarela. Mas há um vacilo logo ali, sobre o lado direito do título, onde se lê Daniel Ciro. A impressão é que este seria o nome do autor do (quase) catatau de 136 páginas. Ledo engano. Trata-se de uma dupla de tocantinenses da capital, Palmas: Daniel dos Santos (roteiros) e Ciro (desenhos e roteiros). A Passeio é seu primeiro livro, lançado no finalzinho de 2015.

Além da forte amizade, Ciro e Daniel têm em comum a idade – ambos nasceram em 1989 –, o fato de não serem nativos da Região Norte do país e a paixão por quadrinhos autobiográficos. É nestas águas que A Passeio navega, ancorado pela experiência pregressa no fanzine Nonada, filhote do coletivo Os Cabrones, fundado por eles. Ou seja, além de criadores, os dois também são figuras atuantes da cena quadrinística local. Ponto pra dupla.

17160898_10210795284271747_546103233_nO livro é composto por uma história mais longa, homônima, e uma pancada de HQs curtinhas – algumas inéditas, outras não. Nestas, percebe-se a inquietação gráfica de Ciro. Ainda que não seja um quadrinista pronto, fica patente o desejo em experimentar as mais diversas técnicas. E dá-lhe pincel, caneta, aquarela, bordados e diferentes composições de página. Outro aspecto que vem à tona é que os resultados alcançados são geralmente melhores quando Daniel está a seu lado.

A Passeio, a HQ, é de fato o carro chefe da edição. Versando sobre os desafios de amadurecer, com uma pegada indie, tinha tudo para ser piegas ou pueril. Não é. Daniel tem timing e sabe escolher os requadros da vida que quer mostrar: a sua. Coragem e honestidade não lhe faltam. Pelas mãos de Ciro, se expõe de peito aberto. A divisão em capítulos – ainda que pautados pelo recurso adolescente das letras de música – cria respiros muito bem-vindos ao ritmo da HQ. (Mas não é justamente sobre o fim da adolescência que eles estão falando?)

Promessa. Esta é a essência e a força de A Passeio. Se o livro não é um marco do quadrinho brasileiro contemporâneo, é a marca inicial de dois talentos absolutamente promissores. Vi desenhos atuais de Ciro e garanto que sua arte está em outro patamar. Quanto ao texto do Daniel, o amadurecimento é inevitável e pode levá-lo, entre outros, a dois caminhos que me parecem bem instigantes: continuar o resgate cada vez mais sofisticado dos dramas da juventude; ou versar sobre a própria vida em tempo real, no presente, com as responsabilidades de trabalhador e pai de família. As futuras jornadas de Daniel e Ciro certamente estarão nos meus mapas.

P.S.: Neste sábado, a partir das 14h, na Galeria Pátio do Lago, T-3, em frente ao Vaca Brava, acontece o GIBIRAMA – Feira Goiana de Histórias em Quadrinhos. Lá, na Hocus Pocus ou na Mandrake, você pode descolar seu exemplar de A Passeio.

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