BLÁCK SABADDO NA SOM LIVRE E CALÇADÃO HOCUS POCUS: ALGO NOVO NO CENTRO DE GOIÂNIA

Não importa quão decadentes sejam, a verdadeira vida das grandes cidades pulsa em suas regiões centrais. É para lá que convergem hordas de trabalhadores todos os dias, mesmo que só de passagem. É ali que o comércio não gourmetizado reina em sua incessante luta pela sobrevivência. Arquitetura, tradições e culturas resistem bravamente nos centrões do Brasil. E dane-se a climatização dos shopping centers.

Em Goiânia não é diferente. Mas fique atento: algo novo está acontecendo sob o manto de Nossa Senhora.

Este sábado é um bom exemplo. Dois eventos tomam conta do miolo de nossa capital: Bláck Sabaddo na Som Livre (sim, a grafia é essa mesmo, letrado leitor) e Calçadão Hocus Pocus. A não ser que você seja um completo imbecil, recomendo uma visita.

Som Livre era o nome de uma rede de lojas de discos de Goiânia, no tempo em que ainda se vendiam discos. Coisa do século passado. Hoje em dia, ninguém mais compra discos. A não ser quem gosta de música.

Foi pro espaço o negócio de se pagar para ter uma bolachão (vinil) ou bolachinha (CD) com as músicas de seu artista favorito. A rede Som Livre (assim como Discatel e Paulistinha) foi junto. Restou essa lojinha na Anhanguera, quase esquina com a 24. Um sebo, na verdade. Vinis, CDs, DVDs e toca-discos esperando sua oferta mais generosa. Mas generoso mesmo é o grande Alexandre Perini, que comendo pelas beiradas tornou-se um dos principais ativistas culturais de nossa roça asfaltada.

Daí que o Perini (arquiteto, DJ, frasista e arqueólogo da Feira da Marreta – outro patrimônio do pedaço) inventou esse tal Bláck Sabaddo. A partir das 9:00 da matina ele começa a discotecar ali na Som Livre, recebendo o público e outros comerciantes de vinis que podem trocar e vender suas pérolas no estabelecimento. Mais do que concretizar negócios, a onda do evento é congregar essa pequena (porém poderosa) comunidade de pessoas para as quais a música ainda é algo importante.

Um pouco mais pra baixo, na esquina das avenidas Araguaia e Paranaíba, rola o Calçadão Hocus Pocus. A experiência de levantar uma tenda e colocar na rua livros e discos – a preços inferiores ao de banana da estação – tem pouco mais de um mês. E o resultado é sucesso.

A Hocus Pocus é um marco da vida cultural goianiense. Há mais de 20 anos o proprietário Moacir Asunção Jr., o Juninho, tem feito a cabeça de gerações de moleques, à base de gibis, música e contracultura. O resultado de seu trabalho é uma Goiânia um pouco menos boçal. Se fôssemos um Estado sério, haveria uma estátua pro Juninho ali mesmo.

Juninho não trabalha sozinho. A Hocus Pocus Corporation congrega ainda seus irmãos Luiz Fafau e Paulinho. Foi deste último – que todos os domingos monta uma banca de livros na já citada Feira da Marreta – a ideia de criar o Calçadão da Hocus Pocus. Livros vendidos a um Real. É claro que tem coisa bem mais cara – tipo cinco Reais –, mas o grosso é esse mesmo: livro por um mísero Real.

Houve sábado em que venderam mais de 400 livros. O que de certa forma desbanca a teoria de que brasileiro não gosta de livros. Brasileiro não gosta mesmo é do preço proibitivo dos livros.

Sou daquelas antas românticas que acredita que a cultura pode transformar a sociedade. É por isso que um dos focos da PEC 241 / 55 é justamente a educação. O raciocínio é batido, mas não deixa de ser verdadeiro: sem cultura e educação é mais fácil tocar o povo marcado, povo feliz.

Esperar qualquer coisa de um governo golpista como o que temos em Brasília é pior que esperar Papai Noel semana que vem. No nosso quadrado, a coisa está terrivelmente afinada com o horror nacional. Sabemos o governo e a prefeitura que temos. Diante do panorama do inferno, o que fazer?

Penso, a priori, em duas alternativas: 1) Chorar e lamber feridas; 2) Partir pra briga com as armas que se tem. Vejo o Bláck Sabaddo na Som Livre e o Calçadão Hocus Pocus como uma tomada de posição. Algo como “Querem nos ferrar, mas não ficaremos esperando de quatro”. É nesse time que eu jogo.

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