BOM DIA!

Em seu sonho, ele persegue amorosamente uma ovelha. Ao alcançá-la, leva uma mordida no nariz. A dentada o desperta.

Sua cama é infantil, no formato de um carrinho de fórmula 1. Ele, contudo, é um senhor. Calvo e com bigode setentão. No quarto, a ovelha do sonho precocemente abortado. “Bom dia”, ele diz. E leva outra mordida – que agora lhe arranca as ventas.

Sem titubear, caminha até uma cômoda, abre uma gaveta e escolhe um dos infinitos narizes que lá estão. Se acha bonito diante do espelho. Mas não percebe que seu reflexo avança sobre nossa dimensão, tomando dezenas de narizes que coloca sobre o próprio rosto.

Sobe uma escada que dá no alçapão de um quarto cor-de-rosa, típico de uma adolescente. “Bom dia, Tigresa Gigante Voadora!”. A Tigresa responde com um rugido e lhe atira o travesseiro, enquanto ele sai por uma porta de submarino, na parede oposta do recinto. “Eu te amo muito, Tigresa Gigante Voadora”, ele volta para dizer, arrebatando o coração da fera.

Por um poste de bombeiro, atinge o andar superior, onde um dinossauro monstruoso pratica halterofilismo com arranha-céus, enquanto derruba caças e helicópteros. É seu guarda-costas. Docemente, pede para ser disparado por um canhão.

Desejo atendido, atravessa dimensões lisérgicas antes de chegar a outro cômodo. É parado pelo cinto de sua própria pochete, à qual também dá bom dia. A resposta vem com a mesma simpatia.

Cumprimenta então uma fatia de pizza, que escorre do teto em um fio de queijo derretido. O fast food lhe questiona: “O que temos para hoje?”. Sua resposta? “Boa pergunta!”
Atravessando uma cortina, chega à cabine de motorista de um trailer, que ele mesmo dirige. Pergunta então para si: “O que temos para hoje?”. Ele se responde: “Não sei, pergunta pra ele...”, enquanto aponta para o banco de passageiro, onde um outro si mesmo, o duplo com a face lotada de narizes, está sentado.

Espirrando, as dezenas de narizes ricocheteiam dentro da cabine. O trailer se desgoverna e atinge uma casa, destruindo a parede do quarto de um garoto barrigudo que luta para colocar a própria camiseta. “Quem é você?”, pergunta o revoltado moleque. “Eu sou o seu Titio Avô!”. A pochete completa: “Ele não é só o seu Titio Avô, mas o Titio Avô de todo mundo”.

Não. Eu não tomei LSD. Estes foram apenas os dois minutos iniciais do primeiro episódio da série animada Titio Avô, criação de Pete Browngardt. Obra-prima.

Ter filhos pequenos tem dessas vantagens. Sem a indicação da minha garotinha que recém completou sete anos, provavelmente não teria acesso a essa maravilha do Cartoon Network, também presente no Netflix. Os amigos sem filhos – mesmo aqueles que curtem animações, bolckbusters de super-heróis, gibis Marvel/DC – sempre boiam quando pergunto sobre o grande Titio Avô.

A série é espetacular, cada episódio mais pirado que o outro. Esse mesmo ainda oferece milhões de maluquices, como o Titio Avô ensinando o guri a amar e utilizar todos os poderes de sua pança, ao caírem numa dimensão de lobos da noite – aqueles lobos pintados com aerógrafo em camisetas pretas de metaleiros com DNA hippie. Irmãos de Pança é o título do episódio.

A genialidade de Pete Browngardt está em criar, tresloucadamente, um desenho ácido, surrealista e muito divertido. Muitos já fizeram isso, mas dirigidos aos adultos. South Park é um exemplo. Ainda não acho que minha filha esteja preparada para Kyle e companhia. Mais que isso, acredito que ela sequer vá se interessar.

Titio Avô é outra coisa. Leva loucura e transgressão, de modos distintos, tanto a crianças bem pequenas quanto a marmanjos degenerados. Algo como um Bob Esponja alucinógeno. Coisa fina e apropriada para toda a família – mesmo as mais caretas.

Todo mundo já se tocou que, via de regra, o melhor audiovisual está hoje na TV, em suas séries. Já ficou até chato o papo de “qual série você está assistindo?”. Vai por mim: por melhores que sejam, em sua esmagadora maioria sequer chegam perto da radicalidade, experimentação, ousadia e mesmo transgressão de alguns dos desenhos animados que estão sendo produzidos. Pergunte pro seu filho. Do Titio Avô eu também sou irmão de pança.

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