Cada banca de revista que fecha me corta a alma

Uma banca de revista que habitava meu trajeto diário fechou. Outra da extensa lista. Cada uma que encerra as atividades mata um pouco de minha esperança em um futuro mais civilizado e letrado. Esses espaços são formadores de cidadania e consciência. Ampliam horizontes. Nunca uma rede social vai ocupar o espaço de uma banca de revista.

Há tempos eu via o movimento da banca que cerro as portas minguar. De todas, na verdade. Mas ficava feliz com sua resistência, ao lado daquele ponto de ônibus. Confesso que tinha curiosidade de saber como ela consegue se viabilizar. Seriam as passagens do transporte coletivo? Ou créditos de celular? Será que o picolé oferece uma margem decente ao comerciante? Sinceramente, não sei.

Se você está lendo esse texto agora, saiba que isso só acontece devido meu amor pelas bancas. Quando meu pai ia comprar o jornal, sempre me deixava comprar também um gibi. Ou então figurinhas dos mais diversos álbuns que colecionei. Ali tomei gosto pelo texto.

Do gibi e das figurinhas, parti para a Placar, depois para a Mad, aí veio a Bizz... E cá hoje estou levando meu adiante meu ofício de maltratar das palavras.

Uma banca em particular me toca o coração: a da Praça do Avião. Devo muito de minha formação àquele espaço. Nem sei verbalizar o quanto sou grato à sua existência. Dramas que só a mim dizem respeito de lado, seguimos.

Preciso ser sincero com você, nobre leitor: há um tanto de canalhice nesse meu lamento. Fico aqui despejando lamúrias em seus olhos sobre o fim desse espaço civilizatório que toda banca é, mas nem sei quando foi a última vez que fiz compras em uma. Alguns meses, com toda certeza. As lojas de gibis Hocus Pocus e Mandrake não entram nessa conta, né? Ok, sei que contradição é meu sobrenome. Isso não me orgulha.

Não vou mais às bancas por uma questão de logística. Banca de revista tem que ser algo do trajeto, da passagem. Na porta da padaria, do supermercado, da escola dos filhos, do trabalho. Você está em sua rotina e, de repente, se oferta o prazer de deixar os olhos flanarem por algumas capas, por algumas manchetes. Quando faz isso, tem o dever de sair com alguma coisa nas mãos. Entenda bem que não se trata de um direito, estamos falando de algo compulsório.

Já tem um bom tempo que uma banca pertinho da Rádio Interativa fechou. Fiquei órfão de bancas no meu trajeto diário. Já que não dava mais para ir todos os dias, comecei a frequentar a do supermercado onde eu fazia compras. Ela também fechou.

Passo a passo, fui fazendo assinaturas das revistas que leio. Hoje, o carteiro é minha banca de revista. Todas minhas (acumuladas) leituras periódicas chegam pelos Correios. Novamente, isso não me orgulha.

Gosto tanto de bancas que, na minha adolescência, cultivava o sonho de ter uma. Só para ter a possibilidade de passar o dia inteiro lendo as revistas e jornais que eu disponibilizava para venda. Ainda não descartei essa ideia que hoje beira a insanidade. Mas o que me move, você sabe, são sempre as causas perdidas. Quem sabe essa não será minha atividade de aposentado? Banca do Seu Kossa. Uma mistura de sebo e banca de revista. Talvez, até um bico de chope artesanal de minha própria fabricação. Até que não me soa mal...

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