A cidade muda tanto que você não mais a reconhece

Eu passava por ali todos os dias. Morava no Setor Aeroporto. Decidiram construir uma trincheira no cruzamento da República do Líbano com a Independência. Não me lembro de grandes debates sobre a necessidade da obra. A polêmica daquele momento foi a remoção das palmeiras. Elas foram transferidas para o entorno da Praça do Avião. Umas vingaram, outras não. Pouco importa. A Prefeitura de Goiânia deu sua resposta ao problema da ocasião. A trincheira ficou pronta. O trânsito não melhorou em nada. Mataram a vida do cruzamento. E também um dos pontos de minha memória afetiva com Goiânia.

Eu passava por ali todos os dias. Na Independência, ao lado do Mutirama, tinha uma cadeia. Na infância, via sua fachada de dentro do carro, do banco de trás do Fusca verde dos meus pais. A construção era gigante, coisa de quase um quarteirão. Triste e pesado, como todo presídio é. Eu tinha medo do local. Na adolescência, estudei na Escola Técnica Federal de Goiás e aquela era minha área. Pegava ônibus na porta do presídio e me habituei com sua presença. Não tinha mais medo do local. Nem sei por quantos anos vi aquele prédio de concreto diariamente. O derrubaram e transforam em um grande supermercado. Tudo que Goiânia precisava. Nossa história cabe numa gôndola qualquer.

Eu ia àquele local semanalmente. Nada impressionava mais meu olhar pueril do que ver aquela construção imponente, majestosa, vibrante. Era só virar da Praça do Cruzeiro para descer a 88 eu que sentia um arrepio subindo a coluna. Não há palavras para descrever a emoção de ver o Serra Dourada do alto do Setor Sul em uma tarde de domingo. As pessoas descendo a pé para o estádio, as bandeiras, os cânticos, o congestionamento, o calor, a expectativa pela partida. Entrar no estádio e vê-lo tomado pelas torcidas dividas, cantando. O gramado de um verde de fazer inveja à antiga bandeira da Líbia. Proibiram a geral, esvaziaram o espetáculo, interditaram o Serra Dourada. E toda memória de um local icônico vai ficando para trás.

O desprezo de nossa cidade pelo passado é algo que precisa ser estudado. Derrubamos os casarões art déco para virarem estacionamento, transformamos a histórica Campininha em um camelódromo aberto, acabamos com o Estádio Olímpico para transformá-lo em um minion cafona, cortamos praças para a falsa fluidez do trânsito, construímos trincheiras e elevados que nos levam rapidamente ao próximo congestionamento, abandonamos espaços públicos como a antiga Estação Ferroviária para que o acaso o degrade mais rapidamente.

Cada vez mais nos desconectamos de nossas raízes e vivemos em uma cidade que não reconhecemos.

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