COMO VOCÊ OUVE MÚSICA?

Sou um sujeito meio anacrônico. Imagino que quem acompanhe semanalmente a coluna já tenha percebido. Não se trata de charme hipster. Nada mais distante. Não sinto orgulho (e tampouco vergonha) desse meu anacronismo, assim como não gasto um centavo sequer para deixar minha barba invocada e nem o bigode com as pontas enroladinhas. Isso sim, me causaria vergonha.

Não tenho grandes certezas, mas suspeito que esse meu deslocamento em relação aos tempos atuais tem a ver com o pouco fascínio que a tecnologia digital exerce sobre mim. Prefiro papel e tinta a mouse e tablet. Não me agrada a ideia de pirar pra tecnologia em si, reificada. Acho coisa de otário devorado pelo progresso consumista.

Daí que eu não sei como a juventude ouve música atualmente. As referências que tenho partem do meu filho, que está sempre ouvindo e vendo coisas no youtube. Não baixa nada – até porque os gadgets que ele tem são de última categoria. Enfim, ele é um moleque esperto e ligado. Portanto, não sei se dá para usar como termômetro.

Então te pergunto, prezado leitor: como você ouve seu som?

É uma questão honesta e séria. Trabalhei diretamente com música por vinte anos e, nos últimos tempos, perdi a referência. Fiquei velho. E ficar velho é, entre outras coisas, começar a ter dificuldades em entender o comportamento da garotada.

Me lembro do Napster e outros programas que permitiam ao público baixar música gratuita e ilegalmente. Chiliques homéricos de Metallica e Madonna. A galera baixava os álbuns (ou apenas as faixas preferidas) e queimava um CD. Mais tarde, passaram a armazenar num pen drive. Agora, acho que nem isso. Os caras ouvem ali mesmo, direto da net. Ondas sonoras vindas de nuvens sólidas.

É isso mesmo? Me contem aí. Temos um espaço gigante aqui embaixo (e no meu feketruque também) para comentários.

Esse assunto me é caro por uma razão muito simples: a música sempre foi algo central na minha vida. Ela me constitui. O indivíduo que sou é inseparável da formação musical que tenho. O fenômeno se repete com a maioria dos meus amigos.

Nunca baixei música da internet – o que revela o nível da minha estupidez. Não consigo ouvir música no computador. Acho a qualidade do som ruim – a não ser que use fones. O problema com os fones é que eles colocam a música diretamente na nossa cabeça. Gosto do som ocupando fisicamente o espaço ao meu redor. Mas tem outros aspectos na jogada...

Me faz bem pensar que quando tirarem o fio da tomada, ainda poderei escutar meus vinis e CDs. Vou sentar ali do lado do aparelho de som, café acompanhando, e entrar num universo sônico sempre renovado. Aquele papo do prazer de olhar a capa e encarte é real. Experiência multissensorial.

Outra coisa que me bota para pensar é o seguinte: como as pessoas que não gastam dinheiro com música esperam que este campo siga adiante? Não que eu tenha algum apreço pela grande indústria fonográfica. São corruptos e escrotos. Não dão a mínima pra música. O que interessa é grana e nada mais. Logo, sou a favor de absolutamente tudo que se oponha às majors.

O sulco é mais embaixo. Num mundo movido pelo hipercapitalismo suicida, o cara compra um celular que custa uma fortuna, mas não quer pagar nada pela música. Quem se ferra nessa é sempre o artista – porque a indústria sempre dá um jeitinho de se dar bem.

Não acho que eu esteja certo e o mundo, errado. Mas a relação das novas gerações com a música é muito curiosa e instigante pra mim. Então, me conta aí, bróder: Como você tem ouvido música?

Pra mim, a coisa não é muito diferente de vinte e poucos anos atrás: Vinis e CDs. Enquanto escrevo, na vitrola está rolando um bolachão que comprei a preço de banana, O Som de Status: coletânea promocional de revista masculina, capa “sensual”, Isaac Hayes, Steely Dan e o tema da S.W.A.T. Pançudos grisalhos sabem do que estou falando.

E você, o que está ouvindo enquanto lê esta presepada? De que jeito? Diz aí.

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