Comodismo só acaba quando a dor é grande demais

Tem uns três meses que estou com uma dor na articulação do dedão da mão direita. Não fica doendo direto, só quando o dobro. Não sei como arranjei esse problema. Somente começou a doer.

Não posso falar que me causa grandes transtornos, mas é chato. Espremer um limão ou abrir o porta-malas do carro são feitos com a mão esquerda. Como eu disse, a vida segue sem grandes transtornos. Se ficar do jeito que está, sem piorar, sabe quando vou procurar um médico para resolver essa dorzinha? Sim, nunca é a resposta mais provável.

Só tiramos nossa bunda da cadeira para fazer qualquer coisa se a pauta realmente nos mobiliza. E pouca coisa nos impele tanto a ação quanto a dor.

Escrevi essa historinha pessoal acima só para fazer um paralelo com o que vivemos hoje no Brasil. Deixe-me tentar uma comparação macro: pense no caso de Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal.

Ele está incomodando, mas seus colegas de toga ainda não entenderam que seja dor suficiente para tentar resolver o problema.

Talvez, o ministro seja um consenso nacional dentre visões políticas tão distintas e conflitantes que povoam atualmente o Brasil. Não há quem o defenda, não tem grupo que lhe ofereça suporte. Existe um sentimento mais ou menos consolidado de que o ministro extrapolou todos os limites razoáveis da compostura que seu cargo exige.

Mas tenho a impressão que a presença de Mendes é como a dor do meu dedão no Brasil. Ninguém toma uma atitude de verdade contra sua nada republicana atuação na esfera pública tupiniquim.

O rol de polêmicas é extenso. Relações com réus que causam suspeição ao magistrado, reuniões noturnas com figurões cheios de problemas no tribunal no qual Mendes é membro, habeas corpus que causaram revolta na sociedade...

Se entrarmos na questão das entrevistas e falas públicas de Mendes, a coisa fica ainda mais delicada. Uma das virtudes mais admiradas que um magistrado pode ter é a discrição. Mendes não cultua esse hábito. Vaidoso como um pavão, adora os holofotes.

A liturgia do cargo que exerce não permite tanta declaração pública acerca de processos que vai julgar, tantas relações que revelam intimidados com pessoas que ele vai sentenciar, tantos cursos pagos por agentes cuja conduta ele ainda pode vir a se debruçar.

O silêncio dos pares de Mendes no STF diz muito. Ou o constrangimento é flagrante, ou algo de muito podre acontece nas internas do tribunal mais importante do Estado brasileiro. Acredito, ainda, que se trata da primeira opção. Mas que demanda uma atitude. Ou seus colegas se posicionam perante a conduta de Mendes, ou a instituição corre grave risco de ter sua imagem pública machada.

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