DORSAL ATLÂNTICA: 30 ANOS ANTES DO FIM

Há exatos trinta anos, um coquetel molotov caiu sobre minha cabeça: Antes do Fim, antológico disco da seminal banda carioca Dorsal Atlântica. Metal brazuca, meu chapa. De um jeito que eu sequer imaginava existir.

Em 1985, a mesma cidade maravilhosa recebeu o primeiro Rock in Rio. A metaleirada tomou conta do pedaço: Ozzy gordão, AC/DC, Whitesnake, Scorpions, Iron Maiden. Um baita intensivão da música do capeta. Eu, moleque, acompanhei tudo pela TV. E o trabalho sujo iniciado pelo KISS dois anos antes se completou ali: pro resto da vida estaria metido nesse tal de Rock’n’Roll.

Boa parte da culpa é do Sr. Carlos Lopes da Silva Antônio. Ou melhor, Carlos Vândalo, guitarra e vocal do Dorsal – que contava ainda com o irmão Cláudio “Cro-Magnon” no baixo e Hardcore na bateria.

Naqueles idos eu já transitava pelos guetos mais escuros e barulhentos do heavy metal. Exodus, Metallica e Slayer faziam parte do cardápio sonoro de casa, junto a Possessed, Exorcist e quetais. Do Brasil, meu toca-discos já havia experimentado Stress, Harpia, as coletâneas SP Metal I e II e a Metal Mania de Robertinho de Recife. Mas o melhor (ou pior) estava por vir...

Antes do Fim teve o impacto de uma revelação. Mais que isso, foi uma injeção de auto-estima: nosso miserento país era capaz de produzir música tão selvagem quanto a que vinha do hemisfério norte – e sem um pingo da grana e da estrutura que eles tinham.

Andei com vinil debaixo do braço por meses, mostrando pra todo mundo. Decorei as letras de cabo a rabo. E era fascinado pela capa, aquela caveira amordaçada pintada pelo Vândalo em pessoa.

Tudo em Antes do Fim era diferente e único. A começar pelo nome da banda. Reza a lenda que quando estava pensando em qual alcunha escolher, o guitarrista abriu uma enciclopédia de forma aleatória e tascou o dedão. Tava lá: Dorsal Atlântica. Um nome pouco sugestivo para uma banda de rock, mas que acabou se convertendo numa espécie de mantra do metal brasileiro.

14686498_10209424331718790_952180191_nOs pseudônimos usados pelos membros do trio também eram pra lá de simbólicos: Vândalo, Cro-Magnon e Hardcore. Nas fotos da contra-capa, os três em ação em meio a luzes fantasmagóricas, parecendo ouriços do inferno. Couro negro, rebites, sombra nos olhos. Metiam medo em qualquer gangue saída do filme Warriors.

É um clichê medonho dizer que determinada banda está à frente de seu tempo. Poucas vezes isso corresponde aos fatos. Mas a verdade é que a expressão servia como uma luva para o Dorsal (ou “a” Dorsal, como preferem os cariocas). Para mim, isso ficou claro tão logo a agulha lambeu o vinil lançado pela Lunário Perpétuo Discos.

“Caçador da Noite” abre a bolacha. Palhetadas thrash da guitarra de Carlos Vândalo são logo comprimidas por uma bateria bate-estaca em moto-perpétuo. Ouvia algo pela primeiríssima vez: metal e hardcore de mãos dadas, massacrando tímpanos com fúria avassaladora. Crossover. Um dos primeiros do planeta.

Hoje, isso não é nenhuma novidade. Mas estamos falando de 1986! E o jovem leitor talvez não seja capaz de imaginar o que acontecia quando um headbanger cruzava o caminho de um punk nos anos 80. Mesmo em Goiânia.

Segunda faixa do disco, “HTLV-3” deixava evidente a diferença entre o Dorsal e as outras bandas da cena metal brasileira: inteligência. Em Antes do Fim não havia papinho de capeta, igreja e nem meu deus, como jesus é sacana. No lugar da cantilena metaleira – já infantil àquela época –, Carlos destilava fúria aguda, pessimismo, angústia e visão crítica (de modo mais elaborado que a maioria das bandas punk, inclusive).

O fantasma da AIDS começava a apavorar um mundo preconceituoso e desinformado. O vírus ainda não tinha o nome pelo qual o conhecemos hoje, HIV. Era então o tal HTLV-3. Urrando, Carlos Vândalo vaticinava: “As pessoas se incomodam /com a liberdade que o mundo tem / Se aproveitar de uma doença / Discriminar mais as minorias”. Segura, Bolsonaro. Chora, João Campos.

A destruição sonora segue com “Álcool” (“Preciso beber / Essa é a vida que eu escolhi / Se eu não me preocupo / Por que você tem que se preocupar?”) e “Depressão Suicida”. Pancadaria entremeada por partes cadenciadas, feitas sob medida para o batedor de cabeça descolar um torcicolo daqueles.

“Vorkuta” aponta o dedo em riste para o totalitarismo stalinista e fecha com louvor o primeiro lado (inusitadamente batizado de 5) de Antes do Fim. A crueza da produção, a inclemente e incessante pegada hardcore, os riffs assassinos e solos inspiradamente tortos de Carlos Vândalo dão a tônica de uma banda ímpar tecendo um álbum histórico. O ouvinte se sente como se tivesse levado uma surra.

Após acumular energias para virar o álbum, a devastação continua. “Joseph Mengele”, o anjo da morte nazista, tão bem acolhido em nossas terras, é o tema de abertura do lado 4. Não bastasse o brilhantismo da música, o final nos traz uma surpresa inesquecível. O que parece ser o discurso de um nazista tresloucado, quando ouvido ao contrário (é, meu jovem, vinil tem dessas coisas) se revela um manifesto impublicável. Quantas e quantas vezes não fiquei girando o disco em sentido anti-horário...

“Guerrilha” é provavelmente o maior clássico de Antes do Fim e do próprio Dorsal Atlântica. Um emblema. Thrash metal na veia, revolução e resistência na alma. “Inveja” e “Morte aos Falsos” lacram o pacote. É hora de retomar o fôlego – e começar tudo de novo.

Impossível quantificar a influência de Antes do Fim sobre mim. E sobre todo o heavy metal feito no Brasil desde então. Max Cavaleira proclama aos quatro ventos que sem Dorsal não haveria Sepultura (nosso patrimônio de maior peso). Quando o Soulfly veio à Goiânia, Max usava a histórica camiseta com a capa de Antes do Fim que o próprio Carlão o havia presenteado. Ou melhor, usava a estampa da camiseta presa à sua roupa por alfinetes. O modelito já não se encaixava à robustez do Cavalera.

Eu tinha dois primos no interior, mesma faixa etária, que gostavam de fazer um som. Ficávamos sempre naquele lance de trocar discos, apresentar novas bandas uns aos outros. Em uma das viagens, me convenceram a cantar alguma música no microfone. “Guerrilha”! Ali percebi que dava conta do recado. E veio Mechanics, Monstro, Goiânia Noise, essas coisas que vocês estão carecas de saber.

Vi um único show do Dorsal, Ginásio de Campinas. Som ensurdecedor e Carlos Vândalo absolutamente eletrificado, debulhando a guitarra. Gravado na retina.

Após uma longa carreira – de muito prestígio e pouco retorno financeiro –, o Dorsal pendurou as chuteiras. É o preço que pagam os pioneiros, aqueles que abrem a picada. Carlos Vândalo (agora, Lopes) partiu pra outra e montou o Mustang, trio de hard rock. Na Monstro, tive a alegria de lançar dois de seus álbuns, o completo oposto do Dorsal: um rock solar, pra cima, alto astral. Ficamos amigos.

Certa vez Carlão me confidenciou que não tinha mais a fúria e o ódio necessários ao Dorsal. Anos depois, através de um crowdfunding, retomou a formação com Hardcore e seu irmão Cláudio para o retorno em álbum com “2012”. Em 2014, novo disco, Imperium. Mas nada (ou quase nada) de shows. Trinta anos depois, ainda me emociono ouvindo Antes do Fim.

O álbum atravessa o tempo incólume, ganhando mais e mais densidade. Aqueles míseros três dias de abril de 1986, usados para gravar o disco, deixaram uma marca indelével no mundo do rock pesado brasileiro. Foi graças a Antes do Fim que eu logo percebi que aquela presepada do Rock Brasil do anos 1980 não passava disso mesmo: presepada.

Há quem goste de Barão, Capital, Paralamas, essas coisas. Eu, não. Carlos Vândalo e sua gangue me botaram na trilha do único rock que interessa: aquele que não se curva.

Muito obrigado.

    Você sabia que o OqueRola está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.