Dove: após campanha racista marca se desculpa, mas só isso não basta.

Lillian Bento

A hashtag #DoveRacista ganhou evidência no Twitter durante o último final de semana e revelou enorme indignação em todo o mundo com marca, do Grupo Unilever. Dove é uma das maiores linhas do mundo de produtos para cuidados pessoais e publicou em sua página no Facebook uma peça publicitária em que uma mulher negra se torna branca após usar uma loção para banho.

Na primeira cena, uma mulher negra veste uma camiseta da cor de sua pele. Ao tirar a peça de roupa, ela está transformada em uma mulher branca, que novamente tira a camiseta e dá lugar a uma mulher asiática. Veja o vídeo:

https://twitter.com/ChaseHenryP/status/917168021927546881

Rapidamente a marca retirou a peça do ar, mas não conseguiu abafar a atitude racista, a indignação e o espanto das pessoas ao redor do mundo. Em seguida, a marca se desculpou em sua conta no Twitter: "Uma imagem que publicamos recentemente no  Facebook errou ao representar mulheres negras de forma desrespeitosa. Lamentamos profundamente a ofensa que (o anúncio) causou".

Mas se de boas intenções o inferno está cheio, o mínimo que a marca do Grupo Unilever poderia fazer é propor uma reflexão mais aprofundada sobre racismo.  Não se trata de um erro rápido, um escorregão, um vacilo. Afinal, essa peça foi pensada por profissionais de criação publicitária, aprovada por gestores da marca, produzida. As modelos e os profissionais envolvidos foram contratadas, enfim, o anúncio é o produto de uma cadeia de erros.

Erros gravemente ancorados ao racismo. E essa não é a primeira vez que a marca recorre a ideias preconceituosas de que limpeza está associada ao branqueamento da pele. Em 2011, já havia feito um anúncio similar em que três mulheres aparecem uma ao lado da outra, sendo a primeira negra e a última branca, sugerindo um "antes" e "depois" em que a pele clara representa higiene e limpeza.

Em 2015, um produto na marca trazia um aviso no rótulo de que podia ser utilizado por pessoas de "pele normal e negra".  Uma série de fatos que mostram o quão racista a estrutura capitalista em que vivemos é. Esse e outros tantos exemplos nos faz lembrar que as relações humanas seguem sem importância. Respeito e empatia seguem a ser práticas utópicas.

A sensação que tive ao ver este anúncio foi de pesar. De um muito sentir por um mundo que segue guiado por lógicas  capitalistas que ignoram cada vez mais o Humanismo. É como ter a sensação de retroceder após muito caminhar. São tantas as lutas para acabar com as inexplicáveis práticas racistas que uma ação como esta, considerada por alguns um mero escorregão,  é uma afronta. Me causa asco.

Em 2013, li um  texto no site Geledés que falava sobre o Teste do Pescoço (Leia aqui). O texto me marcou muito e eu nunca mais parei de fazer o teste que evidencia o racismo ao nosso redor. A proposta dizia basicamente para levantarmos o pescoço ao chegarmos em um determinado espaço e contar quantos negros existem ali. Em uma joalheria, por exemplo, quantas pessoas negras são clientes e quantas empregadas, se é que estão ali.

Na universidade,na  escola do seu filho,em shoppings, clubes, parques públicos. Enfim, por toda parte, sendo você uma pessoa negra, ou não, faça o teste do pescoço e tire suas próprias conclusões sobre o racismo no Brasil e no mundo. Em uma sociedade com um histórico de racismo tão cruel, uma ação publicitária tão tacanha como esta da Dove é um retrocesso. Sinto aversão por tais pensamentos e manifestações racistas e não é preciso ser muito inteligente para lembrar que não é a cor da minha pele ou da sua que fará de nós pessoas limpas e cheirosas.

Fosse assim, não haveriam os perfumes franceses. Criados para encobrir a catinga de uma população branca e europeia que não era lá muito adepta da casa de banho. #DoveRacista

Lillian Bento é jornalista e editora de conteúdo do OQueRola

 

https://twitter.com/katiadnsilva/status/917267900251111425

 

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