Elder Dias: As duas turmas de Muhammad Ali no céu

Muhammad Ali. Mais um nome notável que deixa o mundo, mas de quem o mundo não terá como deixar ao léu suas lições.

Parece estranho falar isso, mas de que vale o talento em si? Um certo Jesus, numa certa parábola, já tinha adiantado, uns 2 mil anos atrás, que somente tê-lo para si de nada valeria. Tá certo que falava de uma moeda, mas os vários usos da palavra permitem essa projeção. Qual é o seu talento? E ele serve pra quê? Pra quem?

No caso da lenda do boxe, vale relembrar seus feitos, ver seus vídeos no YouTube, assistir a reprises de suas lutas memoráveis – imagina, a verdadeira “luta do século”, entre Ali e George Foreman, foi no Zaire, no meio da África, um país que nem existe mais com esse nome!

Mas a vida do Cassius que virou Muhammad foi bem mais do que nocautes e cinturões. Vale ver o sacrifício pessoal que ele cometeu para não abrir mão do que acredita.

No auge da carreira, ele decidiu não aceitar a convocação para ir combater no Vietnã. Ora, o que os vietcongues haviam feito contra ele para ir lá matá-los? Dizia, entre o sarcasmo e a revolta, que, ao contrário do que vivia na América, nenhum deles o tinha recriminado por ser negro. Ficou três anos sem enfrentar pugilistas para combater um sistema que considerava hipócrita e massacrante. E, por nunca tê-la abandonado, voltou à luta, então literalmente, de cabeça erguida.

Muhammad Ali foi “o cara” do boxe. Não o vi lutar, mas desde pequeno, muito ligado aos esportes, sabia do peso pesado que ele fora dentro dos ringues. Com o correr dos anos e o entendimento dos rumos da história, vi que a grandeza dele tinha sido ainda maior longe dos ginásios.

Depois da carreira, deu mais uma lição de vida, acendendo a tocha olímpica escancarando as consequências do mal de Parkinson via satélite, para o mundo todo. O Parkinson que também era consequência dos golpes sofridos em mais de 20 anos de pugilismo.

Agora, no céu de Alá, junta-se a duas turmas: ao panteão de superatletas que tem nomes como Ayrton Senna, Alfredo Di Stéfano, Ferenc Puskas, Emil Zatopek, Johnny Weissmuller, Abebe Bikila e o recém-chegado Johan Cruijff; e ao convívio dos que fizeram da vida uma luta altruísta por atos e palavras, como Martin Luther King, Malcolm X, Gandhi, Madre Teresa, Chico Xavier, John Lennon, tantos outros.

O talento é belo. Mas ir além dele é extraordinário. Obrigado por nos presentear tanto durante sua vida, Muhammad.

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