Elder Dias: A mais infernal das profissões

Desmintam-me se forem capazes: não há uma profissão mais infernal (e, por isso, mais estressante) do que a de motorista de ônibus em Goiânia.

motorista de onibus goianiaEstou há dois meses sem carro por conta da péssima prestação de serviços no Brasil – e isso dá outro texto –, o que me serviu para voltar nos tempos “a pé” de office-boy do meu pai e, também, para chegar à conclusão: se tem uma coisa que não quero ser na vida um dia é motorista de ônibus. Prefiro até mesmo ser repórter no “Diário da Manhã”. Ah não, pera...

Brincadeira à parte, pensem só um pouco no ofício de circular o dia inteiro no comando de uma gaiola do nosso auspicioso transporte coletivo. Pensaram?
Mas pensem melhor, mais a fundo. Coloquem-se no lugar, sintam o que é isso de verdade (lembrem-se do artigo da semana passada, é a tal da empatia).

Primeiramente, você não tem nenhum colega trabalhando contigo: há muito tempo não existe a figura do cobrador. Cujas funções são agora uma das ocupações de quem? Do motorista.

Bom, então, além de ser o chofer, o cara é também o tesoureiro da viagem. Mas não para por aí. Ele também é o mecânico (quantas vezes você, que anda de busão, não viu o motorista parar para dar assistência técnica no veículo?); faz as vezes de fiscal, verificando os cartões dos velhinhos, dos não tão velhinhos e dos estudantes; e ainda tem de se virar como segurança, para prevenir (quando tem como) casos não raros de assaltos ou conduzir situações, cada vez mais comuns, de assédio.

Isso tudo em meio ao caótico trânsito de uma cidade em que a falta de educação reina nas ruas. Se a viagem atrasa, são seus ouvidos que sentirão a ira dos usuários; se tentar acelerar para recuperar o tempo perdido e causar um acidente, o risco de a conta do preju ir para seu próprio bolso é total.

E sua rotina de trabalho é vagar pela mesma rota, do começo ao fim do expediente. O ponto alto do dia são geralmente cenas mórbidas, como espiar o atendimento dos Bombeiros a uma ocorrência num cruzamento.

Tudo isso para não falar de seu inseparável escudeiro, sempre caloroso e falastrão: o motor a diesel. Imaginem todos aqueles decibéis e seus graus centígrados durante as contínuas horas de labuta, todo dia, o ano todo.

Vocês podem dizer “ah, mas professor, médico, piloto de avião, jornalista, policial etc. são profissões muito difíceis também”. Ok, mas pensem bem (de novo): todas essas dão algum grau de recompensa, seja financeira ou de realização pessoal. Qual é a recompensa do motorista? Hummm, o salário é que não. E alguma vez você já viu algum passageiro cumprimentá-lo, tipo dizendo “que viagem bacana foi essa!”, “você dirige muito bem!”, “que curvas cuidadosas o senhor faz!”...? Nem um programa de TV que bata palmas, como o que o Datena tem para os policiais, existe para os motoristas!

Então, voltando à questão lá do começo: é ou não é a profissão mais infernal?

Por enquanto é só uma pergunta e uma hipótese. Um amigo está fazendo uma pesquisa de doutorado sobre a precariedade de ser motorista de ônibus em Goiânia. Um estudo interessante para entender muita coisa.

Até lá, que tenhamos um pouco mais de compaixão daquele senhor sisudo segurando o volante enquanto você sobe os degraus. Ele tem muitas razões para ter aquela cara de poucos amigos.

    Você sabia que o OqueRola está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.