Elder Dias: O pé esquerdo de Messi

Ele olha pra frente com olhar de rês no matadouro. Torce por uma sentença diferente da que se anuncia. O destino, implacável, já decidiu. Tudo acaba. Ele sai para o lado após desferido o veredicto em forma de chute certeiro. Seu primeiro ato é tirar do braço a tarja de capitão. Basta: ele não quer aquilo mais.

Ele é Lionel Messi, cinco vezes o melhor jogador do mundo. Mas, com aquele golpe final do chileno Silva, está condenado a seguir como aquele jogador que nunca conseguiu levar a Argentina a um título.

Depois de 120 minutos sem gol, as cobranças de pênaltis para decidir quem ficaria com a edição especial da Copa América começaram com um erro do artilheiro do Chile, Arturo Vidal. O astro do Barcelona vinha logo a seguir, com a missão rotineira de balançar as redes, pela primeira vez naquela noite.

Bateu. Errou. Chutou para fora. Por cima do gol. À la Roberto Baggio em 1994. Aquela bola passando sobre o travessão ecoou no corpo de Messi até aquele momento. Agora ele era só um farrapo humano se arrastando rumo ao banco de reservas, lugar que não lhe pertence. Deixa para trás seus companheiros estirados no gramado, desnorteados em campo. Estava tudo perdido, então.

Foi isolar-se, como isolado é seu talento e como isolado, em sua carreira, é um mau chute como o de minutos atrás. Onde seu pé estava com a cabeça pra fazer aquilo?

Não consegue entender – nem pode, em tal momento de dor – que isso ocorre com todos. Todos os humanos. Todos os grandes talentos, porque são humanos, apesar de não parecer.

A Argentina também não vai entender. O Brasil não entendeu Zico em 1986. A Itália talvez tenha entendido Baggio em 1994. Não sei. Talvez não. Somos latinos, todos. Constitui-nos uma camada de vira-latismo que se expõe com o suor derramado, ironicamente, pela pressão interna por querer superá-lo.

Messi não quer mais ver aquela camisa azul e branco nem pintada de ouro. É o maior jogador do mundo, mas neste momento, no hotel, no avião ou em casa, se sente o pior perna de pau da Terra. E onde estiver leva consigo aquele pé esquerdo, no corpo e na metáfora.

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