Elder Dias: O senhor barbeiro

A cura do estresse no trânsito que chegou por uma barbeiragem alheia

O trânsito é uma máquina de fazer doidos. Não é por acaso que, ainda nos anos 50 do século passado, a Disney fazia um desenho animado em que o Pateta interpretava (interessante a metalinguagem de um personagem animado interpretar outros) um pacato cidadão chamado Mr. Walker — “Sr. Andante”, em inglês.

https://www.youtube.com/watch?v=fW3m5I-5d-E

O tranquilo Walker, porém, era outro, literalmente, quando entrava em seu carro. em Mr. Wheeler “(“Sr. Volante”, em uma livre tradução). Virava um demônio sobre rodas, disposto a tudo para garantir o espaço de seu carro.

A animação foi bastante inspirada no clássico “O Médico e o Monstro” (“Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde”), livro de Robert Louis Stevenson (1886) que virou filme em 1941. Mas basta dar uma volta pelas ruas para ver o quanto anda atual.

Eu já fui um Sr. Volante. Buzinava ao menor sinal de invasão do meu espaço. Não deixava barato qualquer barbeiragem e, se preciso fosse, mandava o dedo médio com gosto. Até um dia em que subia a 5ª Avenida. Na altura do Parque Agropecuário, levei uma fechada muito descarada de um carro.

O coração encheu-se de fúria instantânea. Apenas a buzinada de cinco segundos não seria suficiente para aquele acinte. Emparelhei o carro, abri a janela do passageiro e já me preparava para soltar o verbo contra o infame.

— Oi, meu filho, me desculpe essa barbeiragem. Eu vim do interior e ainda não sei andar direito aqui em Goiânia.

Me perdoe de coração!

Fiquei sem ter o que falar. Aquele velhinho se antecipou ao meu xingatório. E desarmou a bomba que eu tinha preparado para lhe atirar pela boca. Mais do que isso, me fez, daquele momento em diante, repensar o meu “modus operandi” para esse tipo de situação.
Isso deve fazer uns dez anos. Talvez mais, provavelmente. Hoje raramente buzino para outro carro na rua, a não ser que a coisa seja realmente muito surreal — aí então, a reação é “no susto”.

Devo àquele senhor do interior e à sua barbeiragem muita coisa do que passei a ser nas ruas. Descobri que eu erro demais ao volante e que não tenho direito a qualquer palmatória do mundo ou do trânsito. E, incrível: minha qualidade de vida melhorou demais, a partir de então.

Faça a experiência: releve a barbeirada alheia, e vai ver como a vida nas ruas se torna mais fácil.

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