Elder Dias: Um engraxate, uma coca e o bem que eu não fiz

Foi ontem à noite, ali na Rua 10 – ou Avenida Universitária, como queiram. Point de vários pit dogs, na melhor tradição goiana e lugar de oficialização do jeitinho goianiense no trânsito – onde, depois das 10 da noite, consumidores de sandubas não tem qualquer problema em estacionar do lado interno da via.

Já estava na pós-degustação de um X-Light mentiroso (light sem carne, mas com ovo frito e catupiry, é só pra enganar os que querem ser enganados, como eu) com minha companhia quando apareceu mais um pedinte, como é “de lei” no Centro em geral, mas ali naquela avenida ainda mais. Geralmente são garotos por volta dos 20 anos, alguns mais velhos, e hippies vendendo seus artigos.

Este, não. Já era um senhor na casa dos 40, se o tempo não o acabara antes, o que seria bem possível na vida de rua. Trazia uma caixa de engraxate à mão. Perguntou-me se eu teria 3 reais para pagar um lustre nos meus sapatos. Uma negociação bem proativa, assim. Mas aí eu falei que não tinha dinheiro, “só cartão”. E era mesmo por aí. Mas ele contrapôs:

— Me paga uma “coquinha” então e fica por isso.

E meus sapatos estavam realmente bem afetados pela poeira junina. Concordei e falei

— Pode ir lá pegar a coca, então.

O engraxate, já se ajeitando para iniciar o trabalho, reagiu:

— Primeiro, meu trabalho. O combinado não é caro.

Ok, fiquei sem resposta e deixei o homem trabalhar, enquanto continuava o assunto com minha parceira de sanduíche quase light. Falávamos de política, trabalho e outras coisas. É uma prática comum deixar fora da conversa alguém quem está fazendo seu serviço, ainda que nos servindo. Talvez seja até o normal, mas para é sempre uma posição incômoda.

Enquanto conversava, deu-me vontade de saber mais sobre o engraxate. Mais: deu-me vontade de pagar mais que a coca. Afinal, uma engraxada às 22 horas deveria ter adicional noturno.
Terminado o serviço, ele pediu pra eu conferir. Tudo ok na vistoria. Eu o agradeci, ele se levantou e foi falar com o atendente. Eu confirmei a inserção da Coca 600 na minha nota. Pensei que ele a tomaria por ali mesmo, tempo que eu ganharia para criar coragem de oferecer um sanduíche, light ou não, ainda que básico, para forrar o estômago – putz, uma coca pura descendo não é pra qualquer aparelho digestivo.

Antes que eu reagisse, ele já tinha pegado a garrafinha e cruzado a rua, descendo para os lados da Alameda Botafogo. Sem lanche.
Não seria nada demais ter oferecido o “plus” no pagamento na hora da negociação. Não seria nada demais ter puxado papo com ele, ter sabido mais de sua vida, com quem e onde morava, ou mesmo “se” morava.

Mais do que o bem pela refeição que talvez ele ainda não tivesse tido naquela noite, creio que uma conversa assim lhe transmitiria um sentimento de maior dignidade ainda. Então, por um bloqueio meu de que preciso alcançar a razão, mais do que o sanduba, faltou o bate-papo. Afinal, converso com todo mundo, por que não com ele?

Esta noite, me senti um omisso. Sem pieguismo, deixei de fazer uma coisa boa — não para ele, para mim mesmo.

Vou pouco à Rua 10. Mas talvez encontre o senhor da coca pela graxa de novo. Talvez não. Mas já sei que, se sim, tenho de pensar rápido. E convencê-lo a ter uma alimentação mais saudável à noite.

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