Elder Dias: Uma mesma rotina, duas escolhas para agir

Na semana passada falei aqui sobre como a estressante rotina do motorista de ônibus (confira comigo no replay)

Claro, cada um de nós tem seu modo de agir para enfrentar as intempéries do dia a dia e da vida como um todo. No fim de semana, um dia frio pode ser visto como o de arrumar um bom lugar para ler um livro ou aquele para ser amaldiçoado porque você queria tomar um sol no clube.

Pois em um só dia tive essa experiência de observar os lados opostos de lidar com a mesma problemática. E, de novo, foi dentro dos ônibus da vida.

Saí depois do “Papo Cabeça” para tomar um ônibus que me deixasse no Centro, para então tomar outro rumo ao Campus Samambaia, na região norte de Goiânia.

happyNo ponto da 85 em frente ao campo do Goiás (e não poderia deixar de aproveitar para fazer uma referência o Maior do Centro-Oeste, apesar da má fase, claro), entrei no coletivo. O motorista, na faixa dos 35 anos, cumprimentava com uma voz disponível a todos os que entravam:

— Boa tarde! Olá, boa tarde! Boa tarde!

Os passageiros, meio surpreendidos, respondiam, quase todos timidamente.

Eu mesmo vi aquilo como um ato insólito. Em seguida, uma mulher lhe pediu auxílio, pois não tinha o cartão de viagem. Sem ter dinheiro trocado para socorrê-la, o motorista, educadamente, se dirigiu às pessoas e perguntou quem poderia ajudá-la – o que ocorreu rapidamente. Ela o agradeceu e tudo se resolveu.

Ainda que sem carro próprio por mais de dois meses, tenho andado pouco de ônibus. Pego carona, carro emprestado, vou de bike, mas, nas cerca de duas dezenas de viagens que fiz, foi a primeira vez que vi um profissional do transporte público lidar de forma tão aconchegante com os usuários.

Desci na Avenida Araguaia e o segundo coletivo demorou. Depois da espera, ao subir as escadas, o motorista parecia fazer questão de evitar contato visual com os passageiros. Notei então que meu cartão de viagens estava tinha esgotado o número de viagens. Estava sem crédito. Meio embaraçado, pedi para o motorista cobrar o valor em dinheiro. Ele fez de conta que não ouviu. Insisti. Ele:

— Pede para alguém aí. Não tenho.

Como eu iria descer no fim da linha, me acomodei por ali, no único assento disponível, reservado, até que surgisse alguém que tivesse direito a ele. Enquanto isso, fui observando a atitude do motorista diante dos usuários. Parecia estar aborrecido com todos, especialmente com os estudantes (muitos, pois é uma linha universitária). E aí de quem não lhe mostrasse a carteirinha do passe livre:

— Aqui é assim, estudante não passa sem se identificar, ninguém!

Claro, ele fazia o que era o certo. O problema era a forma. Mais do que isso, o problema é que a forma com que este motorista agiu parece ser a padrão entre os profissionais do transporte em Goiânia: um burocrata do sistema, ranzinza, quando não raivoso.

Já no fim da viagem, “comprei” de um passageiro um crédito por 5 reais (a passagem custa R$ 3,70), já que ele havia alegado não ter troco. Ao passar a catraca, eu o agradeci pelo “favor”, ele nada respondeu.

Pena não termos muitos motoristas como o da primeira viagem. E pena que nos desumanizemos, motoristas e passageiros, tornando ainda mais incômodos nossos minutos dentro daquelas gaiolas desconfortáveis.

Dificuldades são itens de rotina. Cada um escolhe como lidar com elas. Ler um livro ou xingar, no dia frio. Cumprimentar ou ignorar seu companheiro de viagem.

E você, como trata seus percalços?

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