Estou todo lascado, mas ainda consigo me divertir

Não gosto de frio. Se gostasse, não moraria em Goiânia desde o dia que nasci. Ando particularmente mal-humorado com essa frente fria duradoura que estamos enfrentando. Se minha memória combalida estiver certa, é a mais longa média de baixas temperaturas dos últimos 20 ou 30 anos. Ao menos, não me recordo de uma sequência tão longa de frio na minha cidade natal. Na hora dormir, um suplício. Calça, meia, coberta. Mudar de posição durante a noite é coisa para corajosos – não é meu caso. Blasfemando contra a vontade de Deus, contra a pátria e a propriedade nessas noites frias, me lembro de Eduardo Cunha encarcerado na gélida Curitiba. Um sorrisinho brota em minha face, apesar da baixa temperatura.

As contas não param de chegar. Olho meu saldo bancário e está mais vermelho que olho de maconheiro. Faço revezamento de boletos – qual será o atrasado da vez? Não atendo ligação alguma com DDD esquisito: 51, 69, 16, 24... Toca até cair na caixa. Até onde a vista alcança, não haverá tranquilidade orçamentária. Nos próximos meses, essa será minha vida. Os juros bancários sufocam mais que abraço de sucuri. Fecho o aplicativo bancário cabisbaixo e me lembro de Sérgio Cabral preso no complexo carcerário que ele mesmo inaugurou. Um sorrisinho brota em minha face, apesar de todas as dívidas.

O trabalho é tanto que parece escorrer pelas paredes. Enrolo todos os prazos, dou desculpas esfarrapadas para quem me cobra. Cada item riscado da lista de obrigação me tira uma tonelada das costas. O aperto de grana me faz aceitar mais serviços do que as 24 horas do dia permitem. E nem posso reclamar. Com essa crise brava e gente fazendo fila por trabalho, o melhor é aceitar a sina e jogar a bola pra frente. Ao abrir a caixa de e-mails e ver todas pendências gritando aos olhos, me lembro de Antônio Palocci com o rabo entre as pernas fechando sua delação premiada. Um sorrisinho brota em minha face, apesar de tudo que tenho para fazer.

Os imbecis venceram e basta ver alguém chamando Jair Bolsonaro de mito para ter certeza disso. Acham que discurso cretino, cheio de soluções simplórias, resolverão problemas complexos. Confundem grosseria com disciplina, brutalidade com firmeza, misoginia com autenticidade. Olho os últimos levantamentos com os índices de intenção de voto para 2018. Nenhum sorrisinho brota em minha face.

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