A estratégia é acabar com o Carnaval

Não tenha dúvida: a proposta de Marcelo Crivella de cortar 50% do investimento da Prefeitura do Rio de Janeiro nas escolas de samba do grupo de elite faz parte de uma estratégia maior para acabar com o Carnaval.

O diabo, que nas mãos de Crivella é travestido de Jesus, chega de forma cabotina, vem na surdina. Ele come pelos cantos, lhe convence de que é por uma boa causa e, quando você se dá conta, a coisa já pegou tal proporção que é irreversível.

O argumento do prefeito é muito bom. Cortar a grana das escolas de samba para investir nas creches tem força. É difícil se posicionar contra. Confesso que caí no papinho. Foi em uma conversa no almoço de domingo que minha irmã me abriu os olhos. Isso é um plano de ardil ímpar e com planejamento de longo prazo para matar a festa.

Agora, o dever de quem tem uma visão plural da sociedade é defender o Carnaval. Do jeito que ele é, da forma que a gente gosta. Libertino, alegre, da rua. Quatro dias para a esbórnia e meio expediente de quarta para recuperar da ressaca. Não há relativização possível nessa defesa.

Se a gente cede para as creches, daqui a pouco os desfiles ficam minguados e a Globo para de transmitir as escolas em rede nacional. Daqui a pouco, a segunda-feira vem com expediente normal para todas categorias profissionais. Daqui a pouco, cortam o feriado de meio período na quarta-feira de Cinzas. Daqui a pouco, o Carnaval vai ser somente no final de semana. Daqui a pouco, será uma lembrança nos livros de história de uma festa bárbara e promíscua da agora casta República Cristã Universal do Brasil.

Pode parecer um tanto quanto conspiracionista. E, cá entre nós, demanda mesmo um tanto de abstração. Mas com o radicalismo cristão de direita circulando cada vez mais livre, leve e solto por esse Brasilzão, dá para ficar com a pulga atrás da orelha com esse embate de Crivella contra a mais tradicional festa popular nacional.

Se dinheiro é tão importante para essa rapaziada, vamos aos números: 1,1 milhão de turistas estiveram presentes na cidade administrada pelo bispo para curtir o Carnaval em 2017. A festa movimentou R$ 3 bilhões na economia carioca. Ruas lotadas, comerciantes com sorriso de orelha a orelha. Nada desprezível, né?

Para Crivella é. Tradicionalmente, o prefeito do Rio de Janeiro entrega as chaves da cidade para o Rei Momo. Ato meramente simbólico, mas que, como todo simbolismo, diz muito. O bispo não cumpriu com a tradição. E mais: sequer pisou no Sambódromo. Para 2018, propõe fechar a torneira em 50%. O que esperar para o futuro? Aquele passo a passo que listei anteriormente.

Está na hora de marcar posição para que o pensamento reaça não se arvore ainda mais sobre os pontos positivos do Brasil. Abrir mão do Carnaval é abrir mão da própria essência do nosso país.

Se não gosta da festa, tudo certo. Sem problema algum. Religiosos que respeitam a diversidade vão para acampamentos de oração, aproveitam a folga para a caridade, organizam cultos gigantes. Tudo tranquilo, tudo nos conformes.

A defesa intransigente do Carnaval agora é mais que posicionamento. É dever.

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