JORNADA NAS ESTRELAS: VIDA LONGA E PRÓSPERA

Muita gente tem alardeado aos quatro cantos que as séries de TV têm tomado o lugar do cinema. É Game of Thrones pra lá, Breaking Bad pra cá e por aí vai. A pergunta “que série você está assistindo?” virou um lugar comum nos diálogos cotidianos. E se você disser que não está acompanhando nada, prepare-se para ser visto com um misto de pena e nojo. É pior que ser ateu.

Qual a minha série favorita? Tenho algumas. A maioria delas mais velha que os leitores que, suponho, me acompanham. Uma, em particular, tem mais idade que eu, comemorando meio século de existência neste ano de nosso Senhor: Jornada nas Estrelas.

Isso mesmo: Jornada nas Estrelas. Porque esse papo de Star Trek é so marketing globalizado. Coisa que nerd acha bonito. No meu tempo – disse o velhote – não era assim. Tínhamos Jornada nas Estrelas e Guerra nas Estrelas. Nada de Star Trek e Star Wars.

Falando nisso, sempre preferi a turma do Spock à do Luke Skywalker. Não que eu desgoste de Darth Vader e companhia. É que, apesar dos orçamentos gigantescos, planos de publicidade astronômicos e efeitos especiais inovadores, comparado à Jornada, Guerra nas Estrelas sempre me pareceu diversão infanto-juvenil ligeira. Tipo gibi de super-herói.

Jornada nas Estrelas era outra coisa. Ficção científica de primeira, que atravessa cinco décadas tocando gerações. E sem muita máscara para se esconder atrás. A produção (até simpática para a época) tinha óbvios limites orçamentários. Os efeitos especiais se resumiam a um phaserzinho aqui, um teletransporte acolá.

Tempos atrás, tentando atrair uma audiência mais contemporânea, deram um recauchutada digital nos efeitos da série original. Vibe George Lucas. Estratégia contemporânea para vender o mesmo produto, duas vezes, para o mesmo nerd. Se até na trilogia original de Guerra nas Estrelas esse era um expediente desnecessário, o que dizer de Jornada, que definitivamente não estava ancorada em distrações visuais? Não tinha para onde correr: a força da série estava nos roteiros imaginativos, atores brilhantes e direção competente. Fez história.

Ao contrário de uma tendência muito própria da ficção científica, Jornada nas Estrelas não era uma distopia pós-apocalíptica. Otimista, o criador Gene Roddenberry projetou um futuro onde as grandes mazelas da humanidade estariam superadas. A Federação Unida dos Planetas era uma ONU que deu certo. E a elegante nave USS Enterprise (em si, uma personagem de Jornada) não era um aparato imperialista e colonizador. Seu propósito era ir em direção ao infinito, conhecendo novos planetas e culturas.

O comando de bordo da Enterprise era multiétnico e multicultural. Americano, russo, japonês, vulcano, ... todo mundo no mesmo barco. E de brinde, a série ofereceu à TV norte-americana o primeiro beijo inter-racial da história. Dá-lhe Capitão Kirk e Oficial-Chefe de Comunicações Uhura. Não é pouca coisa.

As tramas giravam em torno de como os tripulantes da Enterprise lidavam com o desconhecido. Ou melhor, com a alteridade – para eu parecer mais inteligente do que realmente sou. Roddenberry mandou essa: "[Ao criar] um novo mundo com novas regras, eu podia discutir sobre sexo, religião, Vietnã, política e mísseis intercontinentais. Realmente, nós as colocamos em Star Trek: nós estávamos mandando mensagens e felizmente elas passaram pela emissora."

O trio formado pelo Capitão Kirk (William Shatner), Sr. Spock (Leonard Nimoy, 1931-2015) e Dr. Leonard “Magro” McCoy (DeForest Kelley, 1920-1999) eram o epicentro emocional e dinâmico de Jornada nas Estrelas. Enquanto Spock era o alienígena vulcano incapaz de compreender o desvario das emoções humanas, sempre guiado pela lógica e pela razão, seu contraponto era o Capitão James T. Kirk, capaz de tomar decisões amparado não só pela ciência, como também pela emoção. Uma perspectiva que só agora começa a ser aceita pela comunidade científica.

Para comemorar os 50 anos de Jornadas nas Estrelas, está em cartaz o longa Star Trek: Sem Fronteiras. Ouvi falar que tem ação do começo ao fim e efeitos acachapantes. Deve ser legal. Vou assistir em algum momento. Mas não me parece um Jornada legítimo.

Prefiro voltar às três temporadas da série original, com seus efeitos toscos e sua atmosfera humanista e gregária. Você, que curte séries, deveria fazer o mesmo. Se não conseguir ultrapassar a superficial barreira de uma estética de 50 anos de idade, deixa pra lá. Provavelmente também não deva gostar do bluesman Robert Johnson porque as gravações são muito “ruins”. Ou de cinema expressionista alemão por ser preto e branco.

Agora, superadas estas fronteiras de tempo e espaço, garanto uma coisa: Jornada nas Estrelas irá audaciosamente te levar onde nenhuma série jamais esteve.

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