Justificativas

Sou empresário de um ramo promissor. A locomotiva do país. Faço bonito onde muitos lamentam à mingua. Meu produto é consumido no mercado nacional e até no exterior. Tenho implantado sistema de gestão da qualidade e de compliance. De vez em quando chega uma oportunidade nas minhas mãos. Coisa errado eu sei. Dá para aumentar um pouco os lucros. A ganancia me afronta. Ninguém vai saber. Fazemos escondido. Só dessa vez. Penso no setor produtivo manchado. Penso nos consumidores prejudicados. Mas é que a carne é fraca...

Sou a nova fronteira da justiça no país. Credibilidade em alta. Sou cantado em verso e prosa. Investigo e mando prender quem pisa fora da linha. Tenho todo um sistema de regras e independência. De vez em quando descubro um pessoal fazendo coisa errada. Fico indignado. Um entre tantos que mancha um segmento inteiro. Já tenho provas que justificam uma autuação. Posso faze-lo de maneira midiática e holofótica. Meter o pé na porta e fazer estardalhaço. A vaidade coloca-me o dedo na cara. Mas é tudo justificado. Justiçado. Penso nos outros empresários prejudicados. Penso nos cidadãos atabalhoados. Penso no país. Mas é que a carne é fraca...

Sou o pêndulo da opinião pública. O defensor do cidadão oprimido. Corro atrás da notícia e coloco um país inteiro à par dos acontecimentos. Busco sempre justiça e luta ao lado dos mais fracos. Milhões de pessoas me assistem e me ouvem. Formo opiniões. As vezes aparece um rastro de pólvora. Prestes a explodir. Posso investigar mais à fundo ou simplesmente jogar no ar. Deixar que o público saiba do ocorrido sem filtros. Encurralar as autoridades e posar de herói. A irresponsabilidade me agarra o calcanhar. Mas é pela liberdade de expressão. Penso nas consequências. Penso nas pessoas prejudicadas que não conseguirão se retratar. Mas é que a carne é fraca...

Sou o que tenho opinião. Sigo de celebridades a economistas. Não tem um assunto que eu não saiba. Falo com propriedade de quem leu o suficiente para não passar vergonha. Sou o estereótipo do cidadão moderno. Por detrás do meu computador não deixo barato. As vezes aparece uns assuntos sérios que merecem descer a lenha. Fazer piadinha própria e compartilhar as piadinhas dos outros. Botar banca de sabichão. Bater boca com qualquer um que discorde. Estou protegido mesmo atrás da minha tela. A necedade me atiça. Mas é assim que funciona a coisa. Globalização. Penso nos que perderão os empregos com o redemoinho. Penso nos preços das coisas e na economia que só vai piorar. Mas é que a carne é fraca...

Sou um cidadão do primeiro mundo. Consumidor fenomenal. Mando e desmando no mercado. Peso pesado da globalização. Ajudo os países em desenvolvimento comprando seus produtos. Nada mais que uma relação comercial. Sou exigente principalmente com o que vem de fora. De vez em quando sinto fraqueza no meu parceiro comercial. Detecto a oportunidade. Desembainho a faca. Coloco no pescoço de quem está por baixo. Exijo renegociações ou rompimento. Uso do meu peso. A cobiça corre nas minhas veias. Esse é o jogo do mercado. Penso numa economia arrasada. Penso numa desigualdade degradante. Mas é que a carne é fraca...

Sou um cidadão comum. Consumidor de produtos que as vezes vem embutidos de ganancia. Credor de justiça e eficiência que as vezes vem recheado de vaidade. Telespectador de notícias que as vezes esconde irresponsabilidade. Compartilhador de comentários que explode em necedade. Ignorante de fatos que por vezes são repletos de cobiça. Mas é porque eu sou fraco.

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