As mãos sonoras de Sérgio Pato e a música instrumental em Goiás

Lillian Bento

Conheci poucas pessoas que estabeleceram uma relação verdadeiramente simbiótica com a música e, sem dúvida, o percussionista Sérgio Pato é uma delas. O artista, de 58 anos, tem uma história que se mistura com a história da música e das artes cênicas em Goiás e, por certo, a relação é recíproca. Seja tocando bateria,  chocalho,  conga ou atabaque o certo é que Sérgio Pato tem mãos sonoras.

Nascido em Goiânia, ele iniciou sua trajetória como músico profissional em 1987, quando o diretor de teatro Marcos Fayad o convidou para compor o espetáculo Martim Cererê, com o qual fez turnê internacional, foi premiado e ajudou a criar o atual Centro Cultural Martim Cererê, no Setor Sul. "Para mim esse foi um marco na minha trajetória porque foi quando eu comecei a trabalhar com direção musical, direção artística, de cena. Foi um período de muito crescimento e que me estimulou muito", relembra o músico.

Em 1998, saiu em turnê internacional com o espetáculo e chegou a ganhar o Prêmio Mambembe, juntamente com o cenógrafo do espetáculo, o artista plástico Siron Franco. A premiação foi criada pelo Ministério da Cultura (MinC) em maio de 1977 para premiar os melhores do teatro brasileiro.

E foi antes de iniciar a trajetória no teatro, ainda no início da década de 1980, que Sérgio tocou em bandas de rock que se tornaram referência na história musical da cidade: a Foxtrot, Língua Solta e Oficina de Luz. Hoje, o artista é um dos instrumentistas mais procurados da capital, já tendo tocado com  Marcelo Barra, Laercio Correntina, Fausto Noleto, Emidio Queiroz e Taís Guerino, entre outros.



Mas foi a cantora goiana Cláudia Vieira que Sérgio Pato fez sua maior parceria: os dois são companheiros e juntos tiveram a pequena Maria Rita, de apenas 03 anos. Cláudia chegou na vida do percussionista ainda na década de 1980, quando começava a cantar profissionalmente e Pato foi indicado para compor a banda que a acompanhava.

Dessa parceria nasceu uma intensa amizade e, há dez anos, em uma dessas surpresas que a vida guarda, os dois iniciaram um relacionamento afetivo e da união nasceu Maria Rita e muitas outras parcerias musicais. Uma história de amor e de luta pela cultura e a música goiana. O envolvimento dos dois com as questões políticas relativas à cultura os mantiveram sempre conectados com a arte em seus diversos aspectos e, hoje, além do trabalho como percussionista, Sérgio segue com sua trajetória no teatro, rádio, cinema e em festivais de arte.

 

[caption id="attachment_185040" align="aligncenter" width="600"] Sérgio Pato e Cláudia Vieira. Foto: Lillian Bento[/caption]

 

Patocan e o encontro turco-brasileiro 

Com uma trama melódica sutil e harmonias refinadas, o mais recente trabalho de Sérgio Pato, o álbum Patocan, que ele fez em parceria com o músico turco Can Kanbay, une a liberdade de improvisação do jazz com pitadas sutis de psicodelia. O trabalho nasceu do encontro entre os dois músicos quando, ainda em 1990, Pato viajou com o espetáculo Martim Cererê para Dijon, capital da Borgonha, na França, e ao visitar Paris durante a turnê conheceu Kanbay, com quem teve a oportunidade de tocar e conversar sobre projetos musicais.

Anos após o encontro, Kanbay se mudou para Goiânia e passou atuar por essas glebas como percussionista, compositor e produtor musical. A sonoridade que nasceu da amizade dos dois voltou a ecoar e resultou no trabalho Patocan, que marca de forma única a música popular do Estado. Sérgio é também pesquisador e foi de um levantamento realizado em 2012 que surgiu o primeiro show feito pelos dois e apresentado no antigo Centro Cultural Goiânia Ouro.

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Só em 2013, já com o repertório aperfeiçoado  e outros diversos shows realizados no interior do Estado, Patocan foi formatado. Em 2015, com recursos obtidos a partir do Fundo de Arte e Cultura de Goiás, o trabalho foi gravado. O CD ficou pronto em março de 2016.

O repertório do show tem nove músicas, todas com arranjos ricos que surgiram após muita pesquisa musical. No trabalho, os ritmos brasileiros ganham temperos orientais, africanos, além da improvisação e harmonia do jazz. Há, ainda um clima anos 1970 que é garantido pela pegada psicodélica que Pato e Kanbay imprimem ao trabalho. Um trabalho genuinamente goiano com muitas influências de peso da música brasileira e internacional.

https://www.youtube.com/watch?v=_c7ZojRxjqA

'Vamos a La Praia'

Atualmente, Sérgio Pato está em turnê com o espetáculo Vamos a La Praia, da Cia de Teatro Bastet, em que toca percussão e atua. Segue com seu trabalho como pesquisador de ritmos brasileiros, com ênfase em ritmos regionais do cerrado, além de ministrar oficinas de percussão em ONGs e com atores de grupos de teatro, como  o Grupo de Teatro Nu Escuro. Sérgio Pato é, também, programador e produtor musical da Rádio Universitária, da Universidade Federal de Goiás (UFG), onde apresenta os programas "Música do Mundo", "Baticum Brasileiro" e "Cena Cultural de Goiânia", entre outros. Como eu disse no início do texto: Sérgio Pato vive em simbiose com a música. Sorte a nossa!

[caption id="attachment_185033" align="aligncenter" width="600"] Sérgio Pato em "Vamos a La Praia". Foto: Divulgação[/caption]

Patocan: Clique AQUI para ouvir.

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