MARCH TO SICKNESS – A BRAZILIAN TRIBUTE TO MUDHONEY

O mundo do rock pode não saber, mas possui uma dívida altíssima com o Mudhoney. A razão é, ao mesmo tempo, complexa e simples. Complexa porque eles são a epítome do grunge, o último movimento/momento relevante do tal rock’n’roll (ou alguém aí leva mesmo a sério bandas como Coldplay e Paramore?). E simples porque eles sempre pareceram ignorar o fato de estarem na raiz mais profunda daquilo que originou o Nirvana e todo o boom de guitarras honestamente ensandecidas que povoaram a primeira metade dos saudosos anos 90. Se há alguma banda com autoridade para pleitear algum título de “despretensão”, esta é o Mudhoney. Mas duvido que o farão.

Lá se vão 28 anos desde que Mark Arm (guitarra e voz), Steve Turner (guitarra), Matt Lukin (baixo) e Dan Peters (bateria) roubaram o nome Mudhoney de um filme bagaceiro de Russ Meyer e caíram na estrada levantando muralhas e mais muralhas de guitarras aditivadas por pedais fuzz e bigmuff. Alheios aos altos e baixos da indústria fonográfica – absolutamente incapaz de compreendê-los –, atravessaram estas quase três décadas fazendo o que toda banda de rock deveria fazer: música urgente, viva e idiossincrática. E agora, cinquentões, continuam chutando bundas como sempre. Em resumo, a maturidade não trouxe nenhum desvio de percurso, nenhum bunda-molismo.

Em 2008, a Monstro Discos completava dez anos de existência. De um selo de compactos em vinil criado por dois moleques (quer sejam Leo Bigode e Márcio Jr., o nada simpático escriba que vos fala – e que abandonou o monstruoso barco anos atrás) a uma produtora e gravadora respeitada em todo o país, foi um longo caminho. Ou, como diria minha avó, um queijo e uma rapadura.

Pensar num paralelo com o Mudhoney não chega a ser um exagero, afinal, na história da Monstro também não houve nenhum desvio de percurso, nenhum bunda-molismo. Mas por que pensar em Mudhoney a essa altura do campeonato? Simples... Passei pela prateleira com mais de mil CDs no corredor, estiquei o braço e, sem olhar para ela, o que saiu na minha mão?

March to Sickness – a brazilian tribute to Mudhoney tem embalagem invocada para um recheio incandescente. Em se tratando do campo minado que são os discos-tributo, este foge completamente à regra com versões inspiradas de mamando a caducando. Walverdes, The Sinks e Amp apresentam interpretações de honorável estupidez barulhenta. Enquanto Debate e Ambervisions regurgitam esquisitice experimental, o contraponto pop fica por conta do eletro de Lucy and the Popsonics e do space rock dos Autoramas.

Motherfish, Superguidis, Holger e Vamoz acertam no acento indie. Os Detetives tascam uma versão cucaracha para “Blidding Sun” (saborosamente convertida para “El Sol q ciega”) e as empreitadas instrumentais de Macaco Bong e The Dead Rocks apontam direto para a originalidade ímpar do som do Mudhoney. Muitos disseram que a versão dos malditos Mechanics para “Here Come Sickness” foi o ponto alto do disco – mas isso minha (falsa) modéstia não me permite afirmar. E ainda temos a roqueira Pitty, esbanjando técnica em “If I think”.

O clima festivo e indispensável de March to Sickness se justifica por (pelo menos) três motivos. O primeiro é que o álbum foi uma precisa radiografia do rock alternativo brasileiro da década passada, resultando num diagnóstico de diversidade muito além daquilo que a então moribunda indústria fonográfica teimava em repetir. Segundo, porque ele mostra que uma banda absolutamente íntegra como o Mudhoney ainda serve de norte pra um monte de gente. Neste tributo, a qualidade das bandas não foi o único critério para a seleção, mas também seu vínculo afetivo com a música destes irredutíveis doidos de Seattle. E, por fim, se o mundo do rock não sabe da dívida que tem para com o Mudhoney, problema dele. A Monstro e todas as 17 bandas que participam de March to Sickness sabiam muito bem. E fizeram questão de pagar tostão por tostão.

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