Marcio Junior: Como perder um cliente em uma única lição

Há algo de diabólico na mente dos gordos. Sei disso porque sou um deles. Qualquer deslocamento que faça pela cidade, já imagino onde parar para um lanchinho. Tenho um mapa gastronômico tatuado no estômago.

Dia desses, dei um pulo no Centro para pagar umas contas bancárias. É óbvio que o jogo não ficaria no zero a zero. Logo pensei numa lanchonete onde brotam pães de queijo quentinhos a toda hora.

O local não é bonito. Sequer simpático. Não existe cuidado algum com a decoração – a não ser que você considere decorativa uma pintura tosca feita direto na parede. Dane-se o design de interiores e a gourmetização do mundo. Pintura tosca é comigo mesmo. Pena que ela não seja a única coisa tosca no recinto.

Pedi alguns pães de queijo recém-saídos do forno. Para acompanhar, um cafezinho. (Combinação goiano-mineira que sela um pacto eterno com os demônios do sabor.) Me acomodei em uma das mesas disponíveis, boca salivando – tanto pelos quitutes quanto pela quebra na correria insana do cotidiano. Não consegui relaxar.

De um pequeno aparelho de som – desses bem vagabundos, com direito a auto-falante estourado – jorrava uma ensurdecedora e inaudível propaganda, em loop perpétuo, intimando os transeuntes a adentrarem o recinto. Perto dela, os reclames sonoros da Star’s Chic pareciam show de João Gilberto. Me senti vítima do Massacre da Serra Elétrica.

Incomodado, enguli os pães de queijo e, sem pedir o usual repeteco, parti rumo ao caixa. O dono do estabelecimento, sorriso sonso na cara, manuseava cédulas encardidas. Me pareceu um goianão “nóis capota, mais num breca”. Perguntei a ele se a ruidosa estratégia de marketing estaria, de fato, funcionando.

“Ué, ainda não dá pra saber...”
“É que o volume está muito alto e mal dá para entender a propaganda. Além do mais, o barulho realmente perturba os clientes que já estão consumindo.”
“Mas isso é uma coisa boa, sô. Tem gente que vem aqui, senta e demora muito pra ir embora. Com o som ligado, eles somem mais rápido.”

Atônito diante de tanta estupidez, paguei a conta e fui embora. Nunca mais voltei. Na briga com minhas ferozes lombrigas, o orgulho permanece invicto.

    Você sabia que o OqueRola está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.