Marcio Junior: Ressaca difícil de curar

Toda ressaca é uma relação custo-benefício. Você olha pra jaca, pensa em quão fundo vai enfiar o pé nela, e calcula quanto terá que pagar no dia seguinte. Com juros e correção monetária.

Aqui, a ressaca segue sem trégua. Ressaca de golpe é mais difícil curar. E mais injusta também: não fiz nada para merecê-la – a não ser viver em um país que tem uma das elites mais cretinas do planeta. Votei na Dilma, os bacanas ficaram nervosinhos e pimba: golpe na geral.

Sou um sujeito de esquerda. O que isso significa pra mim? Grosso modo, significa que desejo um mundo menos tosco, mais igualitário, onde os seres humanos possam viver numa boa, fazendo o que lhes der na telha, sem muito sofrimento e sem encher o saco dos outros. Esse é um ponto importante: encher o saco dos outros. Não acho que ninguém tenha esse direito.

Sou a favor de escola, comidinha gostosa, cama quentinha, arte e cultura para todos. Utopia? Claro que sim. Mas todas as mudanças que ocorreram na humanidade foram motivadas por utopias. Se você não tem uma, não deve ter alma também. Ou pior: sua alma deve estar na unha do capeta.

Tipo o Temer. Alguém acredita que ele não tenha vendido a alma pro capiroto? Tá na cara do infeliz.

O Temer é a antítese de tudo que acredito. Ele não quer absolutamente nada do que eu quero. Podemos até ter algum desejo em comum – tipo, viajar pra todo lado, sei lá. A diferença é que ele quer isso só para alguns. Eu quero pra todos. Na pior das hipóteses, quero isso pro máximo possível de gente. Ele não.

O Temer está onde está justamente porque representa o que nossa elite deseja: a manutenção infinita de seus privilégios infinitos. Danem-se os custos disso: temos um exército de milhões de trabalhadores brasileiros para pagar a conta. O plano é que a vida deles seja uma eterna ressaca – sem jamais ter tomado uma gelada sequer na noite anterior.

Mas não podemos nos esquecer: O Temer está onde está porque, acima de tudo, ele é um TRAIDOR. TRA-I-DOR. E essa é uma das características mais abjetas de um ser humano – se é que podemos chamar o golpista de humano.

Se você não reconhece o Temer como traidor, o problema é sério. Ou você é um profundo imbecil – porque a traição dele em relação à Presidenta é impossível de ser relativizada –; ou você faz parte daquele elitezinha ordinária da qual falamos há pouco.

Aí alguém pode aparecer com aquela lengalenga de que “quem votou na Dilma também votou no Temer”. Na urna em que eu votei não havia a opção de escolha do vice-presidente. Se houvesse, com certeza o vampiro brasileiro não teria sido minha opção. E vice é vice, meu chapa! Só deveria aparecer quando o presidente eleito desse uma viajadinha. Ou morresse.

Eu votei na Dilma, não no Temer. Votei nela mais por um processo de exclusão do que por qualquer outra coisa. A Dilma, dos candidatos que estavam concorrendo, era a menos distante das minhas utopias. Fiquei chateado quando, no início de seu segundo mandato, sua ação política ficou meio parecida com o que o Aécio havia prometido. Se eu quisesse isso, teria votado direto nele, pô.

O problema é que os donos da bola, democratas que são, não aceitaram o resultado das urnas. E aí pensaram que já fazia mais de uma década que não ocupavam a cadeira de Presidente da República. E que já era hora de parar com esse mimimi de cotas, programas sociais, oposição às privatizações. E a gente sabe como funciona na várzea: o dono da bola é quem dita as regras.

Plim-plim da cabeça e a classe média branca, vestida de CBF (contra a corrupção!) tomou as ruas. Não para cobrar mudanças nos rumos do governo. Não vi um coxinha sequer ir às ruas para estabelecer novas demandas ao governo eleito. Transformaram a Presidenta em uma empregada doméstica sem direitos trabalhistas: se eu não gosto, demito.

E foi assim que roubaram meu voto. E é por isso que a ressaca tá difícil de passar.

Mas vejo uma esperança no horizonte. Do alto da minha ingenuidade, acredito que ninguém realmente queira o Temer como presidente. Nem o coxinha mais bocó, representante absoluto dessa classe média CBF que foi ás ruas contra a corrupção. (Hahahahahahaha! Desculpem, não consegui conter a gargalhada.)

É claro que muita gente continuará berrando, sempre que possível, FORA TEMER! Inclusive eu. Mas é só raiva. O grito que tá valendo a partir de agora é DIRETAS JÁ! Vamos tentar de novo, Brasil.

(E as elites nem precisam se preocupar. Afinal de contas, se o resultado não for de seu agrado, eles resolvem isso em dois tempos.)

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