METALLICA GAGÁ

Aí eu chego no facebook e não se fala em outra coisa: Metallica e Lady Gaga juntos, ao vivo, na cerimônia do Grammy. Nem preciso ir atrás. Basta rolar um pouco a timeline e a vergonha (ou a completa falta dela) se estampa diante dos meus olhos. Quem mandou eu dar o play?

Lady Gaga, para mim, é um enigma desvendado. Cachorro morto, coberto de purpurina. Quando surgiu, criou-se um frisson ao seu redor. Era esperta, usava roupas excêntricas, falava de Andy Warhol, Pop Art, Bowie, parecia inteligente.

Bastava eu ouvir sua música e o mistério estava armado: Por que eu não achava nada demais? Figurões da crítica musical davam corda, teciam elogios, bradavam relevância. Eu, burro como uma porta, não conseguia enxergar nada daquilo. Para mim, era ok. E só.

Estrategicamente, dei tempo ao tempo. O passar dos anos consolidaria sua obra e seu lugar no olimpo da Música Pop. Funcionou com Madonna, por que não funcionaria com Gaga?

A Terra deu um tanto de voltas ao redor do Sol e nada da grandeza da “artista” vir à tona. Mais do mesmo. Material girl do século XXI. Não é pouco. Mas também não é nada demais. Seu maior feito foi protagonizar a homenagem mais horrenda e constrangedora da história da humanidade, justo ao seu ídolo-mor, David Bowie. E agora, ao lado de James Hetfield & Cia, confirma a reputação de queima-filme.

O Metallica é aquilo: rock de arena. Farofa. Perto deles, o KISS tem a integridade do Fugazi.

Resumo da carreira: Originalíssimos, ajudam a criar o thrash metal. Faziam, ao lado de outras bandas da Bay Area de São Francisco, o rock mais urgente e encharcado de testosterona daqueles tempos. Até o clássico ... And Justice for All, carregaram nas costas uma discografia irrepreensível. Mas aí vem o canto da sereia – que atende pelo nome de Black Album.

Multiplatinado, o disco produzido por Bob Rock fez a transição da banda rumo ao megaestrelato. Uma equação perfeita entre rock vigoroso e apelo pop. Rebeldia na medida para todo e qualquer jovem do planeta. Daí pra frente, perderam a mão. Perderam a alma. De incendiários, passaram a bombeiros num piscar de olhos – e no tilintar das moedas que entupiram suas contas bancárias.

Load, Reload e quetais fizeram sucesso astronômico. Mas já era. O único arroubo de ousadia veio em Saint Anger. Músicas longas, riffs podreiras, batera horrivelmente linda, nenhum solo de guitarra. Os metaleiros torceram o nariz. Metaleiro sempre torce o nariz para qualquer manifestação de inovação e Inteligência.

Para fazer as pazes com seu eleitorado, chamaram o produtor Rick Rubin e mandaram Death Magnetic, o reencontro com as origens. Me engana que eu gosto. As origens do Metallica eram fúria adolescente e inadequação social. Nada que duas décadas de mordomia não tivessem apagado para sempre. Alguém aí se lembra de alguma música de Death Magnetic?

Hardwired... To Self-Destruct é o novo álbum da banda. Vi um ou dois videoclipes e já deu para entender do que se trata. Mais rock frouxo, caricatura de si mesmo. A vida é curta, o Metallica segue gigante e eu tenho mais o que fazer.

Nada mais natural então que a empresa do Lars Ulrich se juntar à Lady Gaga. Principalmente em um Grammy – uma das raras premiações a superar o Oscar no quesito boçalidade. Mas confesso que jamais imaginei algo tão patético.

Pouca coisa pode ser mais fake que roqueiro de novela da Globo. É sempre o cara sem camisa, jaquetinha de couro, lencinho de caveira, trocando o sinal do capeta pelo hang loose surfista. A falsidade desse estereótipo sempre me agrediu. E o que vimos na cerimônia senão esse pastiche elevado à enésima potência?

As garotas batendo cabeça nas laterais do palco pareciam saídas do Especial de Rock da Malhação. Gaga, que sempre teve figurinos inspirados, estava vestida de groupie-periguete-de-mentirinha. No Brasil, a associação com a Joelma Calypso do Pará foi imediata. Mas o horror não ficou só no visual...

A performance da Lady Gaga Metaleira rivalizou com a da Lady Gaga Stardust – no quesito vergonha, claro. Na dúvida entre requebrar e bater cabeça, mandou os dois. Cantou com aquele vozeirão empostado capaz de constranger o metal melódico mais farofeiro. E o stage dive foi antológico de tão poser. No meio de tudo, James, Lars, Kirk e Rob jogando mais uma pá de cal sobre a própria reputação, já tão combalida. Logo eles, que em priscas eras prestaram tantos bons serviços ao tal do Metal.

Quem melhor sintetizou o acontecimento foi meu chapa Glauco Mingau, legenda do underground goiano: “É tudo mainstream, então tá tudo certo. E o Metallica é mais pop que a Lady Gaga”. Concordo.

A solução, caro amigo metaleiro, é não sofrer muito, deixar esse Metallica de lado e se concentrar no Slayer. Ali não tem furo. Ajuda também rezar para que Sepultura e Ivete Sangalo não se metam a um encontro desses. Acho que está por um triz.

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