Mulheres que correm com Mulheres

Mariana Reis*

A jovem escritora indiana Rubi Kaur, em seu belo livro “Outros jeitos de usar a boca”, fez da dor poema: “meu coração sangra pelas irmãs em primeiro lugar, sangra por mulheres que ajudam mulheres, como as flores anseiam pela primavera”.

Nós mulheres aprendemos desde cedo que, dentre papéis e funções sociais, caberia a “passividade” feminina (porque se nos exaltamos somos loucas!) suportar certas situações e relações à custa do “bem da família, da moral e dos bons costumes”.

Os estudos de gênero hoje, principalmente no que tange a autoras e escritoras femininas, avançam no debate e na combatividade ao domínio do patriarcado em nossa sociedade. Esse avanço, entretanto, não elimina as diversas opressões, desigualdades e violências que, não estamos mais dispostas (e muitos homens comungam com essa perspectiva) a aceitar e suportar em nosso cotidiano.

Os dados do DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher revelam um aumento expressivo de 2015 (18%) a 2017 (29%!) de mulheres que denunciam ter sofrido algum tipo de violência doméstica. Quando se tratam de mulheres negras, os dados são ainda mais alarmantes!

O Mapa da Violência 2015: homicídios de mulheres no Brasil mostra que em dez anos, o índice de homicídios contra mulheres negras aumentou 54%! No ano em que o Mapa foi publicado, foi instituída, a Lei do Feminicídio, nº 13.104/15, classificando-o como crime hediondo.

Avançam-se os canais de denúncia que possibilitam às mulheres romperam os silêncios, em contraposição à violência que é uma realidade perversa e diária na vida de todas nós.

Fatos que me chamam a atenção, após ter vivenciado uma experiência pessoal/traumática, também ligada às expressões da violência de gênero, é a ação de mulheres que corajosamente têm dito “não!” para as mais variadas explorações e apropriações do poder masculino.

Tenho percebido nossa gigantesca capacidade-cumplicidade em estabelecer entre nós mesmas laços e afetos que, além de proteção, são pequenas chamas, como diria Galeano, que unidas viram uma intensa labareda-fogueira.

O documentário “Guns, Girls and Isis” retrata a luta de mulheres yazidis, ex-escravas sexuais que se armaram para matar (se for preciso) soldados do Estado Islâmico, com o objetivo de libertar outras milhares (sim, milhares!) de mulheres, dentre elas, crianças e adolescentes, que estão sob seu domínio.

Nós resistimos, em silêncio ou no grito e nos unimos como cinturão feminino, capaz de qualquer coisa.

Sou assistente social e, na atuação profissional vejo mulheres que cuidam de mulheres, de filhas, de sobrinhas, de netas; mulheres que acolhem, que recolhem as roupas jogadas na rua, curam as feridas, vão juntas à Delegacia da Mulher (muitas vezes para serem novamente violentadas); mudam a vida para não permitir que a vida de outra mulher seja destruída.

De apoio mútuo em situações particulares – o fim de um casamento a diversas formas de violência doméstica; da gravidez indesejada, na grande maioria das vezes acompanhada pelo abandono paterno, ao apoio nos abortamentos clandestinos pela sua errônea criminalização – a organizações armadas ou pacíficas (como as Mães de Maio no Brasil), amigas, filhas, mães, tias, primas, avós, bisavós, namoradas, mulheres, nos conectamos pelo corpo feminino que grita o poético e o político, somos caliandras. Abrimo-nos no fogo do Sol e nos fechamos na escuridão da noite, batizamo-nos da inconstância das fases da Lua.

Somos mulheres. Fazemos verbo, há luta!

Resistimos.



 

 

 

 

*Mariana Sato dos Reis é mestre em Serviço Social, Assistente Social Judiciária e  professora do curso de Serviço Social (UNILAGO) em São José do Rio Preto/SP.

 

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