Não basta ser bom ator, tem que se esforçar

Aproveito o merecido ócio das férias para assistir alguns filmes que há anos estão na minha lista e que a correria das atividades profissionais não me permite ver. Ontem foi o dia de Saneamento Básico - O Filme.

Trata-se de uma obra de 2007 de direção de Jorge Furtado. Em uma pequena vila de descendentes de italianos no Rio Grande do Sul, a comunidade decide pela construção de uma fossa que ajudaria a despoluir o ribeirão que corta o vilarejo. Ao procurar o poder público municipal, são informados que não há verba para obras de saneamento básico, mas sim para produção de um curta-metragem. Coisas da burocracia.

Em uma gambiarra bem comum para quem mexe com leis de incentivo, eles decidem fazer um filme sobre a construção da fossa. E, enquanto filmam, garantem a obra que é o real interesse da comunidade.

O elenco é estrelado. Atores do calibre de Fernanda Torres, Paulo José, Camila Pitanga, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Tonico Pereira e Bruno Garcia estão no time. E é exatamente nesse o calcanhar de Aquiles da obra. Essa seleção de atores de inegável talento não vestiu a camisa a contento para que o filme atingisse o máximo de seu potencial.

Assistindo ao trabalho, a impressão que fica é que somente os veteranos Paulo José e Tonico Pereira entenderam a construção dos personagens. Eles de fato encarnaram o que é ser um morador da Serra Gaúcha nas imediações de Bento Gonçalves. Ambos tiveram interpretações fidedignas e mostraram que talento também é coisa moldada pelos anos de estrada.

Os demais não entraram de fato nos personagens. E isso é um problema sério do filme. Não dá para Fernanda Torres passar a verdade de uma garota que mora em uma vilinha do interior gaúcho com os maneirismos do seu sotaque Zona Sul carioca. Garota do Rio não é a mesma coisa de garota da Serra Gaúcha.

A mesma crítica vale para Wagner Moura, Camila Pitanga e Bruno Garcia. Lázaro Ramos, embora não tenha apresentado o mesmo nível de dedicação dos dois veteranos, não compromete.

Pode parecer algo pequeno para colocar todo o filme a perder, e de fato isso não acontece. O roteiro é bem bolado, a história é divertida e você segue até o final da obra com interesse. Mas poderia ser melhor. Caso os atores mais jovens tivessem o mesmo compromisso com os personagens que Paulo José e Tonico Pereira mostraram, o filme subiria de patamar.

Você deve estar se perguntando se mesmo assim vale assistir Saneamento Básico. Se minha opinião valer de algo, respondo que sim. O sotaque Zona Sul incondizente com o da Serra Gaúcha incomoda. Muito. Mas não inviabiliza. Se tiver de boa no final de semana, assista ao filme. Ele está no Netflix. E depois me diga aqui o que achou.

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