PATRIMÔNIO ESQUECIDO

Sou um legítimo morador do Centro de Goiânia. E devo confessar que não conheço lugar melhor na cidade. É no nosso querido e detonado Centrão que as coisas acontecem de verdade. Luzes artificiais, segurança total e ambientes climatizados, só nos shopping centers. Aqui, a vida é real e nada é pasteurizado – se brincar, nem o leite que a gente bebe.

Dando uma circulada pelo Centro, você pode ter muitas surpresas. Os inúmeros sebos são uma inesgotável fonte de surpresas. Onde mais alguém poderia encontrar raríssimos vinis japoneses de David Bowie, ou ainda sair com um livro do Paul Auster debaixo do sovaco por apenas quatro mangos? Ficou com fome? Dá uma chegada no mercadão e devore as melhores empadinhas de Goiânia.

É natural que grandes cidades possuam uma estreita relação histórico-cultural com suas regiões centrais. Em Goiânia, entretanto, esta relação deveria estar elevada à enésima potência, uma vez que a cidade foi projetada a partir de seu Centro. É entre as avenidas Tocantins, Araguaia e Independência que se encontra a alma da capital. Assim, seria de se esperar que nossas prodigiosas autoridades tivessem um cuidado todo especial com a região, certo? Errado.

Negligenciado, o Centro está na pior. A graça de seu estilo art deco (único e legítimo patrimônio arquitetônico goianiense) sucumbiu por trás de aberrantes fachadas comerciais que mais parecem os cenários do Programa Raul Gil. A antiga Estação Ferroviária, o mais arrojado edifício de Goiânia, continua sub-utilizado e desperdiçando beleza. É constrangedor que a velha estação não possa abrigar um museu, uma casa de espetáculos.

Com a desculpa de aliviar o problemático tráfego do Centro, acabaram com o traçado da Avenida Anhangüera. Destruíram suas estilosas ilhas com palmeiras e ainda liquidaram de vez com a Praça dos Bandeirantes, deixando o nosso pobre explorador mal se equilibrando sobre uma espécie de tamborete – tal e qual um guarda de trânsito inglês. O resultado da obra? Um horripilante curral humano, uma vergonha de 13 km de extensão, que rasga a cidade de leste a oeste, sem resolver absolutamente nada, mas que tem matado dezenas de pessoas por atropelamento. Ao menos parece que já temos um programa de controle populacional.

A novidade do momento é o camelódromo que vai ser instalado na Avenida Paranaíba, onde há até poucos dias ficavam aqueles clássicos estacionamentos arborizados, que datavam dos primeiros anos da cidade. Um sacrifício justo, uma vez que para eles serão deslocados, em supostas boas condições os infinitos camelôs que hoje retiram qualquer possibilidade de decência das avenidas Goiás e Anhangüera, deixando-as limpas após anos de imundície. É algo como arrancar um seio para impedir que um câncer se espalhe. Só espero que o nosso querido Pedro Wilson tenha peito suficiente para isso. E que juntos possamos engrossar o coro do Moacyr Franco: “Eu amo Goiânia...”

P.S.: O texto acima foi originalmente publicado num pasquim local em 25 de julho de 2002. Ou seja, quase 15 anos atrás. De lá pra cá, as mudanças que ocorreram foram claramente para pior. Ainda que os sebos continuem firmes e fortes, prepare-se para dar a alma em troca de um vinil ou livro legais. O sonho de uma Mercado Aberto digno na Avenida Paranaíba tornou-se um pesadelo dantesco. E a maldita reforma ortográfica tirou o trema da nossa língua.

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