PERGUNTAS E AÇÕES

Há mais de duas décadas, eu e meu velho chapa Jaime Brasil(-sil-sil) Filho militamos juntos no movimento estudantil universitário, na nossa então baleada UFG. Só jovens mocorongos não sabem como as coisas eram naqueles idos – e, portanto, se sentem à vontade de sair por aí, batendo seletivamente a panela que a secretária doméstica mais tarde irá lavar.

Por cinco anos, no auge da juventude, dividimos nossos interesses em música, quadrinhos e política. Jaimão se formou e partiu pra Roraima. Hoje, é defensor público no pedaço. Reencontrei o sujeito via facebook – uma das poucas serventias desse troço satânico – e, desde então, vira e mexe jogamos virtualmente conversa fora.

Semana passada, li um artigo escrito pelo Jaime para um jornal lá de sua terra. Textaço, que de certa forma sintetiza muitas das questões que me atormentam todos os dias. Espero que elas te atormentem também. Lê aí que vale a pena.

Perguntas e ações - Jaime Brasil Filho

Que sistema econômico é esse, que, quanto mais riqueza produz, mais aumenta o número dos pobres e miseráveis?

Que evolução tecnológica é essa que faz com que o ser humano cada vez trabalhe mais tempo em troca de cada vez menos qualidade de vida?

Que satisfação material é essa que produz multidões de deprimidos e ansiosos?

Que desenvolvimento é esse que contamina ar, terra e água, e que envenena nosso sangue com venenos colocados na nossa comida?

Por que não existe sequer um só país no mundo que se considere fora da crise econômica? Que economia é essa em que não há uma só nação em festa e abundância? E, se não há nenhum país se dizendo próspero, a quem serve esse sistema econômico, e para que serve?

Coincidentemente, por que não há nenhum grande banco no Brasil ou no exterior reclamando dos seus ganhos e lucros? Por que a economia está em crise e os grandes bancos não estão?

Que evolução é essa que nos rouba o tempo de descanso, de convivência com quem amamos, que nos impede de nos alimentarmos com calma e saudavelmente, que nos cobra metas de produção e depois nos descarta como se nunca tivéssemos existido?

É certo pensarmos que estudamos para trabalhar, que dormimos para trabalhar e que até criamos nossos filhos para trabalhar? Se assim é, por que a imensa maioria das pessoas não se sente feliz com o que faz?

Que mundo é esse em que a aparência do corpo que pertence a 1% da população é imposto como padrão único para todos?

Por que as pessoas se deixam seduzir por discursos autoritários e intolerantes mas acreditam querer um mundo melhor?

Por que as pessoas dizem querer a liberdade e escolhem religiões, igrejas, modos de vida e agrupamentos políticos que fomentam a opressão sob todas as suas formas?

Se na história da humanidade os regimes autoritários sempre trouxeram opressão, miséria, tortura, morte e destruição, por que alguns ainda sonham com essa “perfeição” ditada por um grande “pai disciplinador”?

Quando foi, na história da humanidade que a força, a rigidez, a coerção, a tortura, a segregação e a eliminação física fizeram do mundo um lugar melhor para se viver?

Por que alguns se preocupam e criticam a sexualidade dos outros, se, teoricamente, não há o interesse deles em ir para a cama com os que são criticados?

O uso do corpo de cada ser humano adulto deve ser avaliado e controlado publicamente, como nos tempos da Inquisição, ou deve ser um assunto íntimo, privado?

Por que alguns se preocupam e criticam as crenças e religiões dos outros, se elas não se tornam, e, não se tornarão, seres melhores e nem superiores aos criticados?

Por que as pessoas defendem a desigualdade social como algo natural e justo, sendo que essa diferença é geralmente fruto da injustiça?

Se a riqueza é produzida coletivamente, porque alguns poucos se sentem no direito de se apropriar dela, individualmente?

Alguém acredita que exista meritocracia entre pessoas que tiveram oportunidades tão diferentes para competir?

Por que algumas pessoas são contra a regulação de drogas estupefacientes, se elas podem ser compradas de forma desregulada, por qualquer pessoa, em qualquer cidade do país?

Por que algumas pessoas acusam de forma tão veemente os índios, e indigenistas, de impedirem o desenvolvimento na Amazônia, mas são, essas mesmas pessoas, tão coniventes, aliadas e até cúmplices dos grandes corruptos da nossa região, justamente esses que desviam o dinheiro que deveria servir para o nosso desenvolvimento social e econômico?

Se as pessoas querem acesso à riqueza, para que apoiar um modelo de economia em que a riqueza nunca é distribuída realmente para as pessoas?

Se o agronegócio gera pouquíssimos empregos, não paga inúmeros tributos, polui e contamina, destrói a diversidade ambiental, usa financiamento subsidiado com o dinheiro do povo e a riqueza que daí sai fica concentrada, para que apoiá-lo?

As autoridades que deram o aval para o desastre anunciado que foi, e é, a acácia mangium no Estado de Roraima também se responsabilizarão pelo incalculável prejuízo ao ambiente que ela nos trouxe?

Quem tem o dever de tratar a água que bebemos, tem o direito de jogar esgoto nela?

Se gastaram tanto dinheiro com a ampliação da rede de esgoto em Boa Vista, por que tantas ruas cheiram tão mal?

Quem dá esmola o faz por amor ao próximo, ou para manter o próximo distante?

Um bom competidor tem mais valor para o mundo do que o ser solidário e que não sabe competir?

A violência nasce da pobreza, ou será que nasce da desigualdade e da injustiça?

Quem não é capaz de amar outro ser humano por suas diferenças, é capaz de sentir-se a si mesmo sem indiferença?

A intolerância é tolerável, ou ela é uma ameaça à paz de todos?

É justo que os desiguais sejam tratados de forma igual, ou para que se chegue à justiça é necessário compensar as desigualdades?

O sistema produtivo deve ser refém do sistema financeiro, ou o sistema financeiro deveria servir à produção?

O ser humano nasceu para servir ao mercado, ou o mercado deveria atender às nossas necessidades?

Seríamos uma peça ou um robô de um sistema abstrato que inventamos e que é controlado por poucos, ou temos condições de nos inventarmos e criarmos nossos próprios mundos?

Somos capazes de obtermos respostas às nossas perguntas, ou precisamos que alguém nos imponha as suas verdades?

As respostas às nossas dúvidas residem nas palavras, ou podem ser reveladas pelas ações?

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