Polêmica na cena goiana: ingressos mais baratos para mulheres é alvo de fiscalização

Maria Marta Presto

Cobrar ingressos femininos mais baratos ou até mesmo  permitir que mulheres entrem sem pagar nada em bares, baladas, pubs e afins é uma prática comum no Brasil. A prática é polêmica e recentemente o Ministério da Justiça, por meio da Secretaria Nacional do Consumidor, determinou que a cobrança diferenciada é ilegal.

Isso porque a prática é considerada abusiva por afrontar o principio da dignidade da pessoa humana e utilizar a mulher como estratégia de marketing, colocando-a em situação de inferioridade. A determinação entrou em vigor no inicio deste mês em Goiás e as baladas e eventos que descumprirem a recomendação de cobrar valores iguais para homens e mulheres podem receber multas que variam de R$ 600 a R$ 8 milhões.

A fiscalização começou e está sendo feita pelo Ministério Público Estadual (MP-GO) e pela superintendências de Proteção aos Direitos do Consumidor (Procon) de Goiás e da capital. O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Goiás (Abrasel), Fernando Oliveira Jorge,  afirmou em entrevista ao O Que Rola que a instituição está em fase de análise para saber se haverá necessidade de entrar com recurso na justiça contra a medida que estabelece o fim da cobrança diferenciada.



"Aparentemente open bar e open food não serão fiscalizados em Goiás, o que torna a lei menos ruim inicialmente. Portanto vamos fazer um maior estudo e sentir o impacto inicial para ver a reação do mercado perante a situação", conta o presidente.

Um episódio especifico ocorrido no Distrito Federal motivou toda essa mudança. Um estudante de direito processou um estabelecimento que cobrava preços diferenciados pelo ingresso de um show. Com o objetivo de reafirmar a igualdade perante a lei o rapaz deseja pagar o mesmo valor do ingresso feminino. O processo ainda está em andamento.

O Mercado

Em Goiânia a situação não é diferente, no entanto, existem casas noturnas e festivais que sempre praticaram preços iguais para homens e mulheres. É o caso do Bolshoi Pub, que já está a há 13 anos no mercado e adotou a medida para facilitar o controle interno do local.

Apesar de aderir as novas normas, Rodrigo Carrilho, proprietário do pub disse ser contra a medida do Ministério da Justiça. "Acho que o Estado não deve intervir em questões assim, o próprio público deve escolher se vai ou não frequentar a casa. Toda vez que há esse tipo de interferência do Estado na gerência o grande prejudicado é o público'', comenta.

Já Fabrício Nobre, criador do Festival Bananada e sócio da casa Rock, no Setor Oeste, é 100% a favor da medida judicial. Para ele o simples fato de todos serem iguais é o suficiente. "Acho que essa nova determinação é o mínimo que se poderia fazer para acabar com uma das muitas práticas machistas das festas", afirma.

O Que Rola entrou em contato com diversas casas e organizadores de festas que cobram preços diferenciados, mas não obtivemos retorno. Alguns disseram preferir não comentar o assunto.

[caption id="" align="aligncenter" width="559"] Villa Mix 2017. Foto: O Que Rola[/caption]

E o que elas pensam?

O que está em discussão quando se trata da cobrança diferenciada para homens e mulheres é mais que o lucro ou marketing das casas noturnas. Trata-se do uso da figura da mulher como atrativo. Se é mais barato a ideia é ter mais mulheres que homens e aí sim a questão se torna muito polêmica.

[caption id="" align="alignleft" width="318"]La imagen puede contener: 1 persona, sonriendo, lentes de sol y exterior Ludmila Melo. Foto: Facebook[/caption]

Para a cientista política, Ludmila Melo, de 29 anos, a nova decisão é motivo de alegria. Ela acredita que essa é só uma conquista de várias que ainda virão. Para ela, a luta feminista vem ganhando  espaço, além da questão ética que neste caso fala mais alto. "Tudo isso faz parte de uma luta emancipadora. É antiético pensar em colocar pessoas na condição de isca para valorizar o consumo. Mulher não é produto."

A professora de História, Heloísa Queiroz, de 24 anos, também acredita que a única preocupação dos proprietários de estabelecimentos é a de atrair clientes e se você não paga pelo produto, certamente você é o produto. "Durante toda história ocidental, a mulher esteve à sombra do homem. Acredito que estamos diante de uma conquista histórica", afirma a professora.

Já a estudante Flaviana Alves, de 25 anos, que também é a favor da igualdade, espera por novas mudanças. Para ela se apressam em estabelecer uma igualdade e esquecem que as mulheres não são iguais em tudo e isso é problemático. " Eu particularmente pago com o maior gosto, mas outras questões deveriam ser discutidas. Já que vamos tratar de igualdade, então vamos trabalhar essa igualdade em todos os contextos",declara a estudante. Refletir sobre isso é necessário.

Fernanda Cristina, de 23 anos, acredita que ingressos mais baixos para mulheres não é bom, mas ao mesmo tempo existe uma desigualdade salarial e a medida pode ser injusta para muitas mulheres. Ainda assim, Fernanda garante que qualquer tentativa de diminuir a exploração e o assédio de gênero é valida. "Porém “tampar o sol com a peneira”, não surte muito efeito. É urgente melhorar nossas políticas de igualdade, polêmicas como essa são sempre bem vindas para que possamos discutir e repensar algumas práticas cotidianas'', opina.

Para a estudante Brenna Hasimoto, de 23 anos,  a igualdade de preços é urgente. "Há uma grande polêmica sobre o tema porque ele quebra com os paradigmas que conhecemos, mas para uma nova sociedade  nada é melhor que começarmos as mudanças em pequenas doses, para que enfim possamos avançar", afirma.

Para a auxiliar administrativo, Laís Oliveira, de 25 anos, em eventos que não sejam open bar todos realmente deveriam pagar o mesmo valor, mas já em festas em que a bebida é liberada os valores poderiam ser diferentes. "Em festas é possível notar que mulheres bebem menos, tem algumas que nem bebem, pagar os mesmo valor que os homens pode ser injusto", afirma.

Conselho Nacional de Justiça

No dia 03 de julho o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), publicou em sua página no Facebook a respeito da nova decisão que envolve os preços na balada. Várias pessoas deixaram seus comentários e nós separamos alguns. Confira:



Publicação feita pelo CNJ:

https://www.facebook.com/cnj.oficial/posts/1609911402414947

 

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