Porque a mulher livre ainda incomoda tanto?

Lillian Bento

Sentada na mesa do bar ela dividia a cerveja com o amigo. Era domingo a noite e já não havia muito ânimo para conversas. Tudo era cigarro, silêncio e pensamentos soltos. Foi quando ele disse: "Você é uma das pessoas mais desencanadas que eu conheço." Tempos atrás, a declaração a deixaria contente e a conversa seguiria animada, mas agora com alguns anos passados dos 30, o que havia de não dito naquela frase parecia ecoar mais fortemente do que a afirmação em si.

Ela, com uma boa dose de desânimo, perguntou o por quê. A resposta foi o que já esperava. Há alguns anos aquela amizade envolvia sexo ocasional e por diversas vezes quando ele começava a ficar com outras garotas ou mesmo namorar, ela se afastava sempre deixando claro que a amizade não se abalaria por isso. O mesmo aconteceu quando ela se envolveu em outros relacionamentos. E de fato, a amizade não se abalou. Desde o início da história até aquela noite de domingo havia se passado mais de uma década e a amizade seguia. Ora com sexo, ora sem sexo.

Ao falar sobre outros relacionamentos ele reclamava da postura "encanada" de outras garotas que, segundo ele, não lidavam bem com a liberdade do parceiro ou com formatos abertos de relacionamento. Dizia isso enquanto contava sobre seu novo relacionamento. Ele estava namorando e o relacionamento era fechado, claro, porque ele afirmava não estar preparado para lidar com a ideia de a parceira se relacionar com outros homens, ainda que de forma fugaz.

Contou sobre algumas cenas de ciúme, brigas e atitudes da namorada que, segundo ele, gostava de  "marcar território" em redes sociais e em outras situações cotidianas. Ao mesmo tempo em que reclamava, ela notou um certo brilho nos olhos dele. Era prazer. Ele gostava de se sentir disputado e ela sabia  bem disso. A conversa seguiu por algumas horas  até que cansada ela pediu a conta. Ao se despedirem em um abraço ela sentiu as mãos dele deslizarem em seu quadril e pescoço e rapidamente  os lábios quentes dele tocaram os dela.

Paro por aqui porque não é o final dessa história que me interessa abordar aqui, mas o quanto de julgamento moral há em todo tipo de comportamento feminino. Disfarçado de piadas, orgulho ferido, amor ou paixão o machismo segue, muitas vezes maquiado, mas firme e perdura década após década. É muito sintomático pensar que se uma mulher é "desencanada demais" ela deixa o caminho livre para abusos.

Junto a essa mulher desencanada, muitos homens se sentem à vontade para tocá-la de forma abusiva, abordá-la de forma invasiva e até beijá-la sem permissão. É a velha história do "pediu para ser estuprada", que de forma sutil e mascarada segue presente em nosso cotidiano. Se eu disser aqui que anos 1980 era muito comum um homem casado tratar a companheira como a figura imaculada, semelhante à virgem Maria mãe de Deus, e buscar sexo ocasional e mais "sujo" fora de casa, penso que a maioria dos homens vai concordar.

Mas se eu disser que hoje, em diversos grupos de esquerda, por exemplo, esse comportamento se repete, já não sei se será tão fácil para muitos homens reconhecê-lo. O machismo ganhou poderosos álibis e disfarces. No entanto, histórias como as que relatei acima e tantas outras envolvendo comportamentos semelhantes não deixam dúvidas que o machismo persiste.  Em muitos círculos sociais esse tipo de atitude já está até bem manjada e denuncia logo um "esquerdomacho", ou seja, aquele cara que acredita na justiça social e está na luta, mas segue sendo sacana com as mulheres.

O fato é que ser desencanada, ou seja, ser livre, em um mundo que te quer enquadrada torna-se um peso e não deveria. Trata-se de uma escolha que ainda está carregada de estigmas, julgamentos e dedos apontados. Uma escolha que gera situações dolorosas e nos faz ver que pouco mudou dos anos 1980 para cá. Aliás, pouco mudou dos anos 1940, 30 ou 20 para cá. Com nova roupagem, a mulher livre continua a ser apontada como alguém moralmente desqualificada ou aquela de quem se pode abusar facilmente.

Triste sociedade que insiste em julgamentos vazios ao repetir padrões tão machistas e tacanhos. O preço que se paga pode ser alto, mas lutar por liberdade e autonomia não tem preço. Somos livres, somos autônomas. E se o comportamento de uma mulher livre incomoda tanto, respondo com as palavras de Simone de Beauvoir: “a arbitrariedade das ordens e das proibições com as quais me confrontava denunciava-lhes a inconsistência.” E segue denunciando.

 

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*Lillian Bento é jornalista, editora do O Que Rola, doutoranda em Multimeios (Cinema e Fotografia)  na UNICAMP e feminista.

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