Prepare-se: a patrulha ainda vai pegar você

A esquerda ficou toda ofendida com o constrangedor recuo por parte do Santander Cultural gaúcho que cancelou a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira. A indignação do campo progressista é mais que válida, já deixo claro.

É inaceitável a censura de qualquer manifestação artística. Qualquer uma. A liberdade de expressão é o bem maior de toda sociedade que se almeja democrática. Devemos preservar esse instituto com unhas e dentes.

E liberdade de expressão é para aquilo que você odeia. O que lhe incomoda. O que lhe fere. O que lhe causa asco. O que lhe agride.

O discurso que lhe é um soco no estômago é que deve ser ferozmente defendido. Afinal, ficar a favor da propagação da ideia com a qual você compactua é moleza, né?

O problema é que o mesmo campo progressista que achou absurda a patrulha encampada pelo MBL, não se furtaria a fazer igual caso o discurso proferido fosse ofensivo a princípios que lhe são caros.

São fartos os casos em que o mesmo tipo de militante que se mostra defensor dos artistas no Santander Cultural transbordou histeria contra o que lhe ofende. O comportamento é o mesmo dos direitistas gaúchos e que ganhou as redes sociais, só muda o foco.

Vamos aos exemplos.

O movimento negro se rebelou contra o blackface (quando atores brancos pintam o rosto com tinta preta para interpretar negros, o que é considerado uma prática racista) na peça A Mulher do Trem do grupo Fofos Encenam. O Itaú Cultural paulistano cancelou uma apresentação dos artistas e o grupo mudou sua representação. O nome disso é censura.

Gostaria de ver a reação do movimento feminista a canções como Estupro com Carinho dos Cascavelletes

ou Naquela Noite de Rogério Skylab

Certamente não seria zelosa da liberdade de expressão.

Liberdade de expressão não é só para sua galera, tenha clareza disso. É para todos. Caso haja crime contra a honra, discurso de ódio ou apologia, já existem tipos penais para punir quem infringiu a lei. Procure seu direito. Nunca impeça a ideia de circular.

As patrulhas, todas elas, chocam ovo de serpente supostamente na melhor das intenções. E vão ser picadas pelo que gerou. Simples assim.

Faça seu protesto, reclame aos quatro cantos do mundo, vá para o debate de ideias, faça seu texto lacrador, crie seu meme revoltadinho. Mas não impeça ninguém de falar, mostrar, produzir. Principalmente no campo artístico, onde romper fronteiras é essencial. Não existe moral na arte. Oscar Wilde teria dito ela não é moral e nem imoral, é amoral. Assino embaixo.

O problema é que as patrulhas, à direita e à esquerda, não pensam assim. Estão por aí com sua lupa, verificando discurso alheio para violentamente proibi-lo. Daqui para as fogueiras de livros e discos, é um pulo. Dali para queimar artistas vivos, outro.

No coração dos patrulheiros vive o espírito de Torquemada. São todos filhotes da Inquisição.

Se é essa sua ambição, vá fundo. Só não faça de forma escamoteada. Assuma posição de fiscal do alheio. Não fale que é para o bem das crianças. Não diga que é defesa das minorias. Não faça discurso floreado de boas intenções.

Você é um censor. E defendo seu direito de se posicionar em prol da censura. Lembre-se que liberdade de expressão é o meu bem maior. Mesmo que você esteja falando uma inacreditável estupidez. Mas tire a máscara, por favor. Por uma questão de honestidade

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