Racionamento de água chegou a Goiânia e não foi por falta de aviso

Pouca gente sabe, mas antes de me enveredar pelo jornalismo, fui técnico em Saneamento. Entrei na Escola Técnica Federal de Goiás em 1994 para o curso e me formei após quatro anos de estudo. Nunca atuei profissionalmente na área, fora o ano de estágio, em 1997, na Estação de Tratamento de Água do João Leite que fica perto da Pecuária.

No primeiro ano de curso, junto da púbere empolgação pelo tetracampeonato da Seleção Brasileira, chegada do Plano Real e de uma nova geração no rock brasileiro, fiquei impressionado com os números um tanto quanto catastrofistas apresentados pelo professor Álvaro sobre a futura escassez de água que enfrentaríamos em Goiás.

Ele falou em 20 anos. Parecia longe, muito longe. E era mesmo. Mas o dia chegou. Estamos agora com 84 bairros da Região Metropolitana de Goiânia sem abastecimento contínuo.

A Saneago diz que não se trata de racionamento. Eufemismo de provável cunho político. A real precisa ser batida: estamos sim vivendo um racionamento hídrico que não tem data para acabar.

Sabíamos que, caso não mudássemos os hábitos, nosso futuro seria esse. Como brincar com fogo sem se preocupar com o amanhã é mais popular no Brasil do que futebol, cá estamos.

Abusamos de nossos mananciais com irrigação irresponsável, poluímos valiosos leitos com esgoto doméstico, não fiscalizamos com eficiência os dejetos industriais, desmatamos além da conta priorizando a produção agropecuária. E agora estamos com nossas caixas d'água mais secas do que boca de maconheiro.

Se São Paulo já havia enfrentado tal problema, se Brasília já vive com esse drama, se ano após ano várias cidades goianas sofrem no período de estiagem, é evidente que Goiânia estava na fila para também ter racionamento para chamar de seu. Agora o painel está apitando com nossa senha no visor. Vamos lá encarar nosso drama.

Tendo em vista que nosso ciclo de chuva está cada vez mais irregular e com menos precipitações, a característica escassez de agosto e setembro adquiriu contornos sombrios. Já existe uma corrida desenfreada por poços artesianos. Tudo feito do jeito brasileiro: sem planejamento, a toque de caixa, sem fiscalização e cada um tentando salvar o seu. Quanto tempo temos antes que as águas subterrâneas também não consigam suprir a demanda?

A Saneago precisa ser transparente e responsável nesse momento. Pedir consumo racional é muito pouco para o que estamos atravessando. É preciso dizer com todas as letras: estamos em racionamento. Trata-se de uma questão de evidente desgaste político, mas faz parte.

Urge elaborar um plano de redução drástico de consumo. Multas pesadas para quem exceder o proposto, revezamento transparente na distribuição de água para os bairros, pegar pesado com o uso irregular dos mananciais, revisão do uso legal dos mesmos, fiscalização séria para todos os lados, tratamento urgente do esgoto doméstico nos 246 municípios de Goiás.

Sem isso, podemos até chegar ao período chuvoso com danos mais ou menos controlados em 2017. Mas ano após ano viveremos o aumento desse sério problema. O futuro longínquo que tanto falávamos chegou. E de sola. Será que agora vamos nos atentar que a coisa é séria?

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