Show de Gessinger se sustenta nas robustas vigas de sua carreira

No último sábado, Humberto Gessinger tocou em Goiânia. Uma apresentação correta. O clima era de reverência à trajetória do gaúcho, mas bem longe da devoção religiosa que o Engenheiros do Hawaii carregava no auge da carreira.

Ok, gritos de “Humberto, Humberto, Humberto...”, foram ouvidos. Mas em empolgação diferente de outras apresentações na cidade. A idade esmorece a fé dos fãs? Não sei a resposta ao certo.

O show foi no Centro Cultural Oscar Niemeyer. O espaço não estava lotado, longe disso, mas não passou vergonha com espaços vazios. Confortável para o público se locomover, ir ao bar ou ao banheiro. Não sei se para a produção do evento a conta final foi também confortável. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

A atual turnê do artista é comemorativa dos 30 anos de lançamento do segundo disco da banda gaúcha, A Revolta dos Dândis. Contudo, o baixista não toca as faixas na ordem do álbum. Tampouco respeita os arranjos originais. Alterações de andamento, letras e o que mais der na telha de Humberto são bem características de sua trajetória. Quem o acompanha sabe que é assim que ele joga o jogo. Contudo, não considero legal para uma turnê de essência nostálgica. Já que é para tocar o disco na íntegra, pô, siga aquilo que nosso desgastado vinil da capa amarela nos ensinou há décadas.

Mas não é esse o principal problema do show. O ponto central que incomoda de fato é a banda que o acompanha. Os músicos Rafa Bisogno (bateria e percussão) e Nando Peters (guitarra) são competentes, tocam bem e cumprem o script. Mas os falta algo que um show de caráter revisionista exige: áurea.

Aquilo que Walter Benjamin falava é perceptível até nos poros de Humberto – poses, pulos, interação com a plateia. Ele tem verdade. Mas a tal da áurea não chega perto dos dois que acompanham o artista principal. Talvez por serem jovens, talvez por não perceberem a dimensão correta do que é o Engenheiros para uma geração, talvez por vários motivos. Não sei. O astral não colou para o que demanda aquela atmosfera. A real é que eles não pareciam ser de fato da banda. A pegada de músico de barzinho contratado para tocar com um grande artista estava muito explícita. O indizível tem suas incontáveis nuances.

Então o show foi ruim? Não, longe disso. Como um repertório com robustas vigas que sustentam nossa memória afetiva é ruim? Impossível. Além do álbum tema da turnê, Piano Bar, Somos Quem Podemos Ser (onde a gauchice raiz mostra as caras), O Preço, Pra Ser Sincero, entre tantas outras estão ali para nos emocionar. E cumprem seu intuito com precisão.

Para não dizer que peguei demais no pé dos músicos que acompanham Humberto, eles se destacaram na execução de Eu que Não Amo Você. É inegável que o vigor juvenil emprestou um peso interessante à música. Trata-se algo, mas ainda muito pouco.

No final das contas, o show cumpre, mesmo que algumas vezes de forma trôpega, sua função nostálgica. O sorriso no rosto na hora de voltar pra casa é prova de que a noite valeu a pena.

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