Sobre Joãos e Marias

O caso Andreas me chocou muito. Mas muito mesmo! Estava na sala, quando minha esposa mandou-me o link pelo Whatsapp. Abri e li. Impressionei-me por várias coisas e ainda por outras que a mídia não mostrou. Vamos aqui a algumas.

A mais óbvia, claro, foi o grau de disruptura lógica de pensamento a qual um menino desses chegara. Morar na rua, passar fome, frio e necessidade, ficar sem o mínimo de dignidade, de conforto, não ter limite algum, seja pela vida ou pelo muro, fugir da polícia e alucinar em delírios psicóticos de perseguição.

A culpa é da irmã. Suzanne Von Richtoffen, sobrenome difícil e conhecido de grande parte da população. Há 15 anos mandara matar os pais com o conluio dos irmãos Cravinhos. Noticiado em todos os jornais pela violência do ato, a imagem hipócrita de Suzanne chorando desesperada comoveu as famílias em todo Brasil. Moça bonita e rica vitima da violência em nosso país. Para o espavento de todos, ela mesma cometera tal selvageria.

O irmão Andreas foi vítima dessa macabra história. Imaginem só, queridos leitores, como que vocês se sentiriam no sapato desse menino? Como se sentiriam caso seus pais fossem mortos a pauladas dentro de casa e ainda depois você descobrisse que fora a mando da sua própria irmã? Por mais que se amparasse, estruturasse a vida do Andreas, precisaria de muita, mas muita base pra não se enveredar pelo caminho mal. Infelizmente ele não conseguiu.

Virou um zumbi, como são chamados os moradores da cracolândia. Embora doutor em química pela USP, academicamente bem resolvido, estava ainda no primário emocionalmente. E quem pode culpá-lo? Quem pode “tacar a primeira pedra?”

O que nos choca nessa situação é que a acompanhamos desde que ela começou. Vimos uma família ser destruída. Vimos vidas serem ceifadas impiedosamente. E a mando de alguém aparentemente inculpável. O ponto fora da curva. Família abastada, moradora de bairro nobre, filhos estudando em colégio particular, loiros e de olhos claros. Em nossa formação seletiva, não esperaremos que isso aconteça com uma família assim.

Pensei então com os meus botões: quantos Joãos e Marias estão na mesma situação que o Andreas. Quantas pessoas ali da cracolândia são pessoas de família tão devastada pelas vicissitudes diárias. Quantos “Walking Deads” ali não tiveram forças pra lutar contra uma situação imposta a eles. Quantos pobres ali não tiveram o pai morto pela mãe ou o contrário, o irmão morto pelos pais,os que foram violentados sexualmente, foram maltratados a ponto de quererem tirar a própria vida... Aos poucos... Pedra por pedra... Três segundos de cada vez...

Mas eles são pobres, né? Não tiveram força de vontade, né? Não souberam deixar o passado no passado e construir algo novo, né? Estão nessa por que querem, né? Tem que ter força de vontade, né? Basta querer, né? O senso comum nos proporciona muitos “nés”, mas nenhuma reposta ou solução.

Acabar com a Cracolândia é necessário? Um estrondoso e alto SIM!! Podemos deixar o viciado escolher a hora que vai começar o tratamento? Um bradante e estrepitoso NÃO!! Podemos discutir a forma de acabar com ela? Outro SIM!! Podemos deixar pra lá e cada um que se vire? Outro NÃO!!

O que se sabe, com certeza agora, é que naquela noite de 31 de outubro de 2002, três vitimas fatais foram feitas; Manfred e Marísia von Richthofen, mortos na hora a marteladas, e Andreas, morto aos poucos... Pedra por pedra... Três segundos de cada vez...

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