Trabalhar em grupo é difícil demais

Já fui alguém com habilidades para lidar com grupos. Em tempos nem tão remotos assim, sabia o local exato que eu devia ocupar no campo em qualquer tipo de trabalho.

Não só isso. Também tinha algum talento para escalar as pessoas no time. Conseguia identificar qualidades em alguém para determinada função, sabia da potencialidade do cara para certo trampo e tinha capacidade de sacar que em outras pautas ele seria um completo fiasco.

Não sei se tenho mais essa virtude. Dia após dia, trabalho em grupo fica algo mais difícil de ser executado e me demanda um sacrifício cada vez maior.

Sempre fui chato e cheio de manias. Quem me conhece há anos sabe que isso está longe de ser novidade. Só que agora estou velho. E chato. E cheio de manias. Com muito mais rabugentices devido à idade. Lidar comigo não é coisa fácil.

É claro que tal situação tem resolução que até pode ser considerada simples. Quando se reconhece um problema, está dado o primeiro passo para uma mudança comportamental. Mas esse definitivamente não é o meu caso. Reconheço o problema, porém eu não quero mudar.

Cultivo com algum tipo de orgulho não declarado uma postura distante, quase indiferente do mundo contemporâneo. Não tenho paciência para novidades musicais, não quero saber do novo seriado imperdível-que-não-acredito-que-você-não-conhece-mas-você-tem-que-assistir do Netflix, odeio filme de heróis, acho boçal quem não está com um livro ou revista em mãos ao encarar uma fila, estou mais por fora que umbigo de vedete dos bares descolados da cidade.

A verdade é que produzo melhor sozinho. O trabalho rende mais, os resultados são mais vistosos. Gosto de terminar um passo para começar o próximo. Uma coisa de cada vez. Se faço tudo ao mesmo tempo agora, e eventualmente a vida me compele a algo assim, não é com prazer. Isso traz sofrimento. Não aprecio nada com açodamento. Tenho minhas rotinas e odeio quebrá-las. Tenho meus planejamentos e grades de horários que só são desrespeitados por motivos de força realmente maior.

Por isso que quando estou sozinho a coisa rende mais. Tenho mais controle sobre os processos. Quanto mais gente, mais sujeito a variações estamos expostos. Não gosto disso. Para trabalhos em grupo, prefiro que cada um fique responsável pelo seu quadrado e que eles se somem ao todo no final. Se não tiver jeito, abro exceções. Mas elas estão cada vez mais raras.

A produção coletiva rende comigo em algumas situações. Mas só com poucas pessoas das quais gozo de muita intimidade e entrosamento. Trabalho bem em conjunto com minha mulher, meu cunhado e alguns amigos que posso contar nos dedos das mãos. Exceções que confirmam a regra. Já conhecem toda minha doideira e sabem como lidar comigo. Isso me dá conforto. Com eles, sinto que estou protegido para criar como quando a coberta cai sobre meu corpo nessas noites frias. Minhas fragilidades encontram suporte. Como amo isso. E sei que com essas pessoas tenho muita coisa a fazer até o último dia de minha vida.

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