Tragédia do Mutirama decreta fim de ícone da infância goianiense

Impossível não ficar com o coração cortado. Ao abrir o WhatsApp enquanto pipocavam mensagens sobre o acidente no Parque Mutirama na última quarta-feira, sentia meu chão se abrir. Cada informação desencontrada, cada notícia sobre feridos, cada post revoltado intensificava minha tristeza.

A única coisa que me vinha, além do profundo sentimento de solidariedade para com as vítimas, era que eu nunca mais levaria minhas filhas àquele espaço.

E como dói pensar isso. O Mutirama ocupa espaço nobre no imaginário goianiense. E não é para menos. Todo mundo que passou a infância em Goiânia, ou ao menos um momento dela, de 1970 para cá guarda um gostoso sentimento de nostalgia pelo espaço.

Independente de classe social, independente de nível cultural. Por décadas o Mutirama representou um ponto de união das crianças da capital. O parque sintetizava o conceito de diversão infantil para gerações.

O Mutirama se constitui na própria identidade da infância goianiense.

Eu me recordo de cada momento de excitação na minha infância nos anos 1980 envolvendo aquele parque. Da chegada ao local, do algodão-doce, do balão, do tobogã, da lixeira de palhaço, do trem fantasma, do autorama, do carrinho de bate-bate, da volta do tremzinho...

Quando meus pais estavam sem grana, já avisavam: “Hoje não tem brinquedo pago, só os da areia”. Sem problemas! Eu me divertia um monte nos balanços, foguetes e escorregadores. E voltava para casa sujo de areia da cabeça aos pés.

Na adolescência, estudei na Escola Técnica Federal de Goiás, ao lado do Mutirama, e comecei a jogar basquete na quadra do parque. Também andei de skate na pista do local. Os primeiros namoricos nos banquinhos do parque, a pamonha frita de lanche. Excelentes recordações.

Tempos depois, já pai de duas garotas, também guardo momentos de muito afeto para com o espaço. Que adulto não se emociona com o sorriso sincero de suas filhas brincando no carrossel ou no, veja só como a vida é dura, no Twister.

Não vou dizer que o parque me inspirava confiança. Tenho um amigo que nunca deixou suas filhas irem ao local por medo de acidente. Sempre o achei paranoico. Pra ser sincero, continuo achando. Mas, agora, como posso dizer que ele está errado?

Particularmente, tinha receio em relação a parte elétrica do espaço. Eu e minha mulher combinamos de só levar as garotas ao Mutirama no período de seca. E veja só você que triste ironia: a tragédia aconteceu no meio da estiagem. Isso prova que por mais que a gente tente prever um problema, ele vem de onde menos esperamos. Por isso que a administração deve cumprir todos protocolos de segurança e manutenção com disciplina espartana.

É temerário atribuir qualquer tipo de culpa sem uma investigação profunda. Os motivos do acidente que deixou em estado grave uma criança e uma senhora devem ser rigorosamente apurados. As primeiras impressões apontam para a imprudência pela falta de manutenção dos brinquedos. Só nos resta, enquanto sociedade, cobrar com veemência a severa punição dos responsáveis.

Contudo, não há pena no mundo que reconstrua a reputação do Mutirama. Mesmo que venha outra reforma, uma revisão completa seja feita em cada brinquedo e todos os cuidados sejam tomados. A imagem do parque se quebrou junto da fatídica peça do Twister.

Você ainda tem coragem de levar seus filhos para brincar no parque? Sinto profundamente dizer que eu não. E como isso me entristece.

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