TRASH AGORA É CINEMA FANTÁSTICO

Na década de 90 (do século passado, óbvio) era assim: ou você tinha um considerável orçamento para produzir um filme, ou então seu filme era trash.

A tecnologia digital ainda era coisa de ficção científica. Filmar significava equipamento mastodôntico, rolos e rolos de negativo, grana preta. Cinema não estava ao alcance de meros mortais. Produzir imagens em movimento era coisa pra gente do naipe dos Moreira Salles. Mas, como sempre, havia os malucos que se negavam a aceitar esse determinismo econômico.

Sem um tostão furado no bolso, um bando de moleques começou a produzir filmes (!?) com câmeras VHS. O elenco era formado por amigos. Ilha de edição? Dois aparelhos de videocassete. As fitas nunca iam para o cinema. Eram exibidas em shows underground, inferninhos barra-pesada. E vendidas pelo correio.

15033594_10209695676102230_1853859092_nO resultado era risível, mas os “cineastas” não davam a mínima para isso. Pelo contrário, adoravam esse arremedo de cinema popular. O importante era chutar o balde – afinal, em suas veias corria paixão audiovisual e sangue de ketchup. Cinema trash made in Brazil.

Trash, como todo o mundo globalizado sabe, significa lixo. Era também o título dado a filmes de baixo orçamento e humor involuntário. Ed Wood equivale a Orson Welles neste gênero cinematográfico bagaceiro.

Sempre houve controvérsias quanto ao termo. Seriam trash José Mojica Marins, Roger Corman e Mario Bava? O fato é que a alcunha acabou colada a produções amadoras (no melhor sentido do termo). Pouca grana e muita invenção. E como diria o saudoso Jairo Ferreira, cinema é invenção.

Daí que, em 1999, atolado no universo da cultura alternativa, resolvi criar a TRASH – Mostra Goiana de Vídeos Independentes. (E por tabela, o primeiro festival de cinema do Estado de Goiás.) A ideia era simples: oferecer tela para esta produção de combate e resistência, completamente avessa ao audiovisual lambidinho, cheirozinho, institucionalizado. Transgressão era a palavra de ordem. Foi um sucesso.

No Centro Cultural Martim Cererê, onde aconteceu a primeira TRASH, o público compareceu aos borbotões, urrando de alegria em sessões antológicas. De lá pra cá, muita groselha passou debaixo da ponte.

Nos anos em que conseguimos realizar a mostra (gratuita, sem fins comerciais e honrosamente dependente do amparo de programas de incentivo à cultura) recebemos os filmes e convidados mais espetaculares: Ivan Cardoso, Carlão Reichenbach, Paulo Sacramento e o próprio Zé do Caixão – entre outros ícones da rebeldia imagética. De várias maneiras, a TRASH contribuiu com a formação de muitos profissionais (hoje tarimbados) do cinema goiano. Por outro lado, enquanto gênero, o trash foi gradativamente perdendo seu apelo.

Dá para entender. Foi pro espaço o abismo que existia em 1999 entre o cinema com grana e o cinema duro. A tecnologia digital virou o mundo de cabeça para baixo nestes últimos 17 anos. Se antes os filmes toscos praticamente não possuíam janelas de exibição, agora a internet dá conta desse recado. Lembre-se: naqueles idos, youtube era algo tão mirabolante quanto golpe de estado em 2016, ou Trump presidente dos U$A.

Os equipamentos de vídeo digital também foram um fator determinante nesta transformação. Hoje, qualquer celular meia-boca produz imagens infinitamente superiores à melhor câmera VHS dos anos 90. Resultado: só é trash quem quer. Ou quem é catastroficamente destituído de talento – o que não deixa de ser algo interessante.

Em suas últimas edições, o emergente cinema goiano deixou de submeter seus trabalhos à mostra, com medo de ficar mal-falado. Sem entender o charme e a graça do gênero, uma considerável parcela do público terminou por se afastar do evento. O trash ficou anacrônico e terminou por arrastar a TRASH junto. Chegou então a hora de reinventar o festival mais antigo e divertido do pedaço.

A principal mudança foi ajustar o foco da mostra rumo ao Cinema Fantástico. Com isso, a TRASH – que pode inclusive mudar de nome em uma próxima edição – passa a ser um festival dedicado a filmes de horror, ficção científica e fantasia. E mais: agora o papo é internacional.

De cara, a TRASH superou de longe as mais absurdas expectativas quanto ao número de inscrições. Foram 2.393 filmes inscritos, dos mais diversos cantos do planeta (111 países, para ser exato). Daí que, para realizar com honestidade uma tarefa virtualmente impossível, os curadores Carlos Primati – maior autoridade em cinema de horror no Brasil –, Beatriz Saldanha, Márcia Deretti e Márcio Jr. tiveram que criar uma série de balizas e filtros – além de se transformarem em vampiros, virando noites e noites diante dos trabalhos enviados.

Desse borbulhante caldeirão, foram selecionados ao todo 9 longas-metragens e 46 curtas, a serem exibidos entre 07 e 11 de dezembro de 2016, no Cine Cultura. Mas a TRASH – Mostra Internacional de Cinema Fantástico, não para por aí. No sangrento cardápio oferecido, teremos ainda oficinas de cinema e efeitos especiais, debates, mesas redondas, festas, lançamentos de livros e quadrinhos, e convidados pra lá de especiais.

Acompanhe as novidades e não tenha dúvidas: essa TRASH será assombrosa. Que venham os calafrios.

 

 

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