TRÊS ANOS SEM LOU REED

Há três anos, a Santíssima Trindade ficou manca: Lou Reed partiu em um domingo, 27 de outubro de 2013, aos 71 anos de idade. Maldito fígado imprestável! A Terra tem sido um lugar mais idiota desde então... O príncipe do submundo sai de cena e nos deixa ainda mais atolados na treva da ignorância.

Lou Reed não tem paralelos. Ao lado de Bowie e do Sr. James Osterberg (os dois outros lados deste sacrossanto triângulo), foi responsável por retirar o rock, de uma vez por todas, de seu confortável âmbito juvenil. Música de gente grande. Arte. Do quilate dos gênios. Do calibre dos deuses.

Lou Reed foi o cara que encharcou a tal música pop de vida. Vida mesmo, de verdade – isto é, aquela que está sempre beijando a morte. Poeta genial, magnífico guitarrista, iconoclasta, Reed sempre teve a mais cristalina consciência de que o mundo está repleto de idiotas entediantes. Nunca teve pena ou foi condescendente com eles. Esporte preferido? Chutar a imprensa.

Todos querem mandar aquela xurumela: desde New York não lançou um álbum que... Conversa fiada! Lou Reed jamais deu mole e nunca se pautou por ninguém ou porra nenhuma. Construiu sua obra de forma arrojada, transgressora e ímpar até o último suspiro. Não buscou consenso, tampouco unanimidade. Ah, se fosse no Brasil... Aqui, o máximo que conseguimos foi gente do naipe do Caê e do Gil. Estamos fodidos, não estamos?

E agora, num dos ápices da caretice, da boçalidade e da estupidez, Mr. Reed não está mais aqui para dar o sempre inusitado nó nos cérebros (gargantas e almas) daqueles que arriscam cruzar seu caminho.

Ao lado do velvet Cale, mandou Songs for Drella. Carlton: um raro prazer. Chutou o balde com The Raven, dobrando o significado de álbum. Tem ator e músico ali, ciscando corvamente a obra do bebum americano. E ainda rendeu uma versão em parceria com o inacreditável Mattotti – um craque de primeiríssima linha das artes gráficas.

Gravou disco para meditação. Fez turnê comemorando aniversário da Máquina Metálica. Metallica. Lulu. Execrado mundialmente. VOCÊS ESTÃO DE BRINCADEIRA?!?!

Lulu é outra coisa. Um experimento autoindulgente, pero ultraradical. Quem, em sã consciência, imaginaria juntos Reed e Metallica? A música é boa? Putz... Nem sei se aquilo é música.

Um par de anos atrás, lançando Ecstasy – um disco que passou batido pela crítica musical brasileira (que vergonha!) – Reed esteve no pedaço. Fui conferir. O inimaginável aconteceu diante dos meus olhos: um show de jazz, fluido, indócil e livre. Nenhum standard (falar de hit com Lou Reed não me parece nada apropriado). Apenas Romeu & Juliet. Irreconhecível e, de acordo com minha memória, sem refrão.

Lou Reed foi mestre supremo na arte da não entrega, que não se entrega. Nunca diluiu sua obra ou mesmo sua persona. Escreveu, fotografou, deu o rabo, fez o cacete. Lou Reed nasceu, viveu e morreu Lou Reed.

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