Aline Mil: O saco plástico e a gaiola

Publicado em 24.06.2016


Se existem asas, elas têm de poder voar

Meu pai tem uma fazenda que herdou dos pais portugueses em Hidrolândia, pertinho de Goiânia. Lá passei bons momentos da infância e pretendo passar bons momentos da vida adulta também. E uma das melhores memórias afetivas que me levam diretamente a esse pedacinho de terra é o som do canto das araras canindé.
Já escrevi aqui na coluna que o amor intenso que sinto pelos animais é de família. Pois bem, não tem um em casa que não pare o que estiver fazendo na chácara para sair correndo apontando para cima e falando “olha o casal de ararinhas” na maior empolgação. E a trupe toda sai correndo atrás para tentar ver aqueles borrõezinhos azuis e amarelos no céu. Ficamos todos bobocas e sorridentes quando isso acontece, afinal, é um privilégio.

Acho os pássaros fascinantes! Não só por terem a invejável habilidade de voar, mas por serem delicados e fortes ao mesmo tempo e carregarem uma infinidade de cores, formas e padrões nas penas e bicos. Não é à toa que tenho duas tatuagens de pássaros e, talvez, faça mais algumas. Por esse fascínio é que receber notícias de maus tratos a eles me corta o bom humor.

Nesta quinta-feira pela manhã, entre as várias mensagens de acidentes e ocorrências policiais que recebo diariamente no grupo da TV em que trabalho, havia uma pequena nota do Corpo de Bombeiros de Goiás seguida de duas fotos. Dois filhotes de arara canindé foram resgatados pela corporação perto de Pontalina, região sul do Estado. Os filhotes haviam sido abandonados às margens de um córrego, dentro de um saco. Um passante ouviu o barulho e chamou os bombeiros que, felizmente, resgataram os animais a tempo.

ararasNão vou entrar no mérito de tentar entender qual o tipo de psicopata que faz uma maldade dessas com dois animais indefesos. Não existe qualquer argumento que me faça ao menos absorver essa situação. Mas minha intenção aqui é usar esse fato lastimável para afirmar que sufocar aves em um saco plástico à espera da morte não é muito diferente de aprisioná-las em gaiolas. Por mais chocante que essa frase seja para alguns, é o que considero realidade.

A pessoa pode ter toda boa intenção do mundo. Dizer que ama seu passarinho, que cuida dele muito bem, dá amor, alimento e carinho. Mas o aprisiona e isso nunca será o ideal. Nenhum amor que aprisiona é saudável, não é mesmo? E não é porque o animal nasceu no cativeiro e essa seja a única realidade que ele conhece que a vida na gaiola é a melhor que aquele animalzinho possa ter.

Se existem asas, elas têm de poder voar. Não aprisione aves silvestres, muito menos alimente a indústria de pássaros “domésticos”, comprando canarinhos e periquitos no pet shop porque gosta de ouvi-los cantar. Gaiolas são egoístas. E, por mais que estejamos nesse mundo nos achando os manda-chuvas do pedaço, temos de entender que somos meros moradores, assim como todos os outros animais. E é preciso respeitar nossos vizinhos.

Para dar continuidade a essa ideia, deixo aqui uma dica para o fim de semana: assista ao documentário francês “Terra”, disponível na Netflix. O filme, com fotografia deslumbrante (sério, é incrível), mostra como o planeta surgiu e deu origem à fauna e à flora que conhecemos hoje. O longa de Yann Arthus-Bertrand mostra ainda a relação da humanidade com outras criaturas e como estamos, cada vez mais, nos afastando delas. É principalmente uma incrível reflexão sobre a indústria do alimento e, por isso, rolam algumas cenas mais impactantes. Olha só o trailer:

*Tem alguma sugestão de tema para a coluna? Alguma dúvida? Deixe um comentário ou envie um e-mail para [email protected]

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Aline Mil

Jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás. Já trabalhou em impresso, rádio, tv, mas gosta mesmo é de internet. Apaixonada por animais, é voluntária no Projeto Viva Gato em Goiânia - textos novos todas as quintas

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