AOS 90, COM JERRY LEWIS E STAN LEE

Publicado em 23.12.2016


O que você estará fazendo aos 90 anos de idade? Quanto a mim, não faço a menor ideia – até porquê, as chances de chegar lá não são das mais promissoras. Mas tem um monte (ou melhor, um tanto) de gente famosa que já ultrapassou nove décadas de existência e segue ativa e vibrante. Foi o que descobriu o The Hollywood Reporter.

The Hollywood Reporter é uma revista fundada em 1930 dedicada ao cinema americano. (Trocando em miúdos, um veículo voltado à cultura das celebridades.) Como não poderia deixar de ser, com o passar dos anos, o THR estendeu seus tentáculos sobre outras mídias, principalmente a internet. E foi no mundo virtual que lançaram há pouco uma série de vídeos com 10 figurões da indústria do entretenimento que, beirando um século de vida, ainda dão no couro. Dois deles são fundamentais para mim: Stan Lee e Jerry Lewis.

http://www.hollywoodreporter.com/video/creative-you-die-stan-lee-957338

Stan Lee é o cara. Combinação nitroglicerínica de criatividade e senso empreendedor, Lee é o pai do Universo Marvel. Qualquer um que acompanhe minimamente quadrinhos de super-heróis sabe que o carismático bigodudo não inventou tudo sozinho. Ele sempre esteve escudado pelos melhores – no caso, Jack Kirby e Steve Ditko, entre outros tantos ases da narrativa gráfica. Mas essa é uma das características mais presentes em criadores geniais: cercar-se dos melhores.

No início dos anos 1960, Lee já era veterano da combalida indústria dos quadrinhos norte-americanos. De saco cheio, estava pronto para chutar o balde, quando sua esposa deu a letra: “Já que você vai mesmo mudar de ramo, por que não escreve gibis do jeito que realmente gostaria que fossem?”. Nascia então o Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Hulk, Thor, Vingadores, X-Men, Demolidor e por aí vai. Um sucesso atrás do outro.

A fórmula de Lee consistia em adicionar falibilidade e drama aos supers. Deu certo. A indústria dos comics – nome dos gibis na terra do Tio Sam – ganhou novo fôlego. E não deixa de ser impressionante o fato de, décadas depois, os mesmo conceitos e ideias criados pelo roteirista serem as bases do cinema hollywoodiano e, por tabela, da indústria do entretenimento contemporâneo. É como se, depois de uma longa carreira de sucesso, prestes a completar 94 anos – aniversário semana que vem, 28 de dezembro –, ele estivesse o auge

No vídeo do THR, Stan Lee dá o show de sempre, esbanjando carisma, ultra à vontade em frente às câmeras. Bem-humorado, solta pérolas do tipo: “Se alguém me obrigasse a jogar golfe todos os dias, eu meteria bala nele!” Ou ainda: “Quando alguém se aposenta, tem a chance de fazer o que sempre quis. Eu sempre fiz o que quis.” Ao final, o velhote ainda dá uma lição de ativismo politicamente correto, lançando campanha sobre tolerância e talicoisa.

http://www.hollywoodreporter.com/video/watch-7-painfully-awkward-minutes-jerry-lewis-957299

Jerry Lewis é o extremo oposto de Stan Lee: impaciente, sarcástico, irritadiço, nada simpático. Sabe exatamente o que significa o The Hollywood Reporter e destrói o entrevistador com respostas monossilábicas, ainda que carregadas de inteligência e sagacidade. Jerry Lewis consegue ser mais matador que Jerry Lee Lewis. Dentre os dez vídeos produzidos pelo THR, foi o seu que chacoalhou as redes sociais nos últimos dias.

Lewis é um gênio da comédia e do cinema. Foi preciso que os europeus esfregassem isso no focinho dos americanos para que eles percebessem – se é que perceberam. Minha infância foi permeada por seus hilariantes filmes, em parceria com Dean Martin, que tomavam de assalto a Sessão da Tarde em época de férias. “Bancando a ama seca”. “O professor aloprado”. Ouro puro, meu camarada.

Engraçadíssimo nos palcos e nas telas, reza a lenda que Lewis era absolutamente casca-grossa fora deles. Talvez por isso o papel em “O rei da comédia”, de Martin Scorsese tenha lhe caído como uma luva. Ainda não assistiu? Não sabe o que está perdendo…

Não foi à toa que a entrevista recebeu o título de “7 minutos dolorosamente incômodos com Jerry Lewis”. A coisa toda começa com o entrevistador cuidadosamente perguntando se o comediante já havia pensado em se aposentar. “Por quê?”, responde um carrancudo Lewis, deixando o repórter desconcertado. Ele ainda tenta seguir pelo mesmo caminho: “Mas em nenhum momento lhe ocorreu a ideia de se aposentar?” – e Lewis o interrompe com outro sonoro “Por quê?”

Em poucos segundos de conversa, Jerry Lewis já havia demarcado o terreno: Nada do papo eminentemente hollywoodiano de busca pela eterna juventude, ou que a velhice significa o fim. Ali, com mais de 90 anos, se materializa um sujeito que não se dobra aos ditames da indústria do entretenimento, para a qual as pessoas têm prazo de validade. Vivo e poderoso, o comediante liquida o adversário com um único olhar e a pronúncia de “não” como resposta.

Enquanto toneladas de celebridades em ocaso rastejariam pela oportunidade de reencontrar a mídia, balançando o rabinho e lambendo as mãos do Big Brother, Jerry Lewis dá uma banana para esse circo insólito. E olha que o repórter não é nenhuma anta desinformada, como aquelas que estamos acostumados a ver em nossa vexaminosa imprensa.

– Por que pessoas como você continuam trabalhando? – Porque nós fazemos bem feito.

Jerry Lewis dá a exata diferença entre o artista e o entertainer. Ele não está ali para agradar ou ser simpático. Sequer pensa em autopromoção. Não lhe interessa entregar o que a indústria lhe exige, reduzindo-o a um velhinho serelepe. Não reconhece o poder dessa mesma indústria, desafiando-a olhos nos olhos. Arte é desafio.

Em comum com Stan Lee, a idade avançada e a ideia de que sequer pensa nisso. Aposentadoria significa a morte. Ainda bem que no Brasil nosso querido Michel Temer está se encarregando de transformar todos os trabalhadores em Jerry Lewis ou Stan Lee.

 

 

 

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Márcio Júnior

Produtor cultural, Mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG - textos novos todas as sextas
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