CHAPECOENSE, PEC E TELEVISÃO: UMA COMBINAÇÃO DE ARRASAR

Publicado em 02.12.2016


O acidente que vitimou o time do Chapecoense deixou todo mundo derrubado, deprê, pra baixo. Não foi exatamente o meu caso. Sou um monstro? Já fui. (Desculpem o trocadilho infame, quase uma piada interna.) Mas não é essa a questão.

Não tenho TV em casa há uma década. Quando eu digo isso, as pessoas geralmente pensam duas coisas: 1) Ele é louco. Ou 2) Esse palhaço quer aparecer, dar uma de “intelectual” – como diriam alguns amigos. Novamente, não é essa a questão.

O aparelho televisivo está lá, pendurado na parede da sala. Tem outro no quarto, de tubo, ocupando espaço pra cacete. O lance é que nenhuma das TVs está conectada a canais, sejam abertos ou a cabo. Sacio minhas necessidades audiovisuais na base do DVD, VHS e Netflix. Traduzindo: gosto de escolher o que assistir. E não gosto de propagandas.

Nos finais de ano, a coisa é de uma covardia gritante. Os recursos da publicidade são absurdos na hora de vender o Natal, principalmente para as crianças. Moleque de 5 anos de idade já é vítima consumada do consumismo desenfreado. Não quero que meus filhos cresçam debaixo dessa torrente sem fim.

Não sou purista, fique bem claro. Jamais proibi meus garotos de assistirem TV – e propagandas – em outros locais. Mas tampouco acho legal deixá-los sob ataque o tempo todo. Um filtro, digamos assim.

Como você faz para não se entupir de chocolate ou cocaína? Evitando ter isso em casa. O mesmo vale pra TV. Se não quero ser bombardeado pela maldita televisão brasileira, evito tê-la ao alcance de um toque no controle remoto. Com isso, mantenho distante a carga diária de publicidade e a qualidade questionável de nossa televisão.

Anteontem estava numa lanchonete perto de casa, tomando um café, comendo um pão de queijo e dando um bico na TV do estabelecimento – que fica ligada o tempo todo, geralmente em programas esportivos, jornalismo porta de cadeia e coisas como Fátima Bernardes. Lá estava a ex-Sra. Bonner dedicando seu programa à tragédia do Chapecoense.

Foi a única coisa que vi na mídia sobre o acidente. Na verdade, não era sobre o acidente, mas sobre a tragédia em si, aquele refestelar-se no sofrimento alheio – fazendo muita grana, diga-se de passagem. Naqueles minutos, tudo se reduziu àquele negócio de link ao vivo com sei lá quem que era amigo de todo mundo, lágrimas e talicoisa.

A tragédia do Chapecoense é uma dessas coisas tão tristes e absurdas que retiram as pessoas do chão da vida cotidiana. De repente, todo mundo se vê atolado na empatia midiática, sofrendo junto. E então aquela dor passa a ocupar tudo – enchendo os famigerados bolsos de nossas empresas de telecomunicação.

Fiquei verdadeiramente sentido pelo ocorrido com o time de Santa Catarina. Mas por não ter sido exposto ao drama cínico e oportunista da TV, aquilo não me afetou de forma tão inclemente. Melhor assim. Meu sofrimento não ajuda em nada.

Minha preocupação mais aguda no momento é a aprovação da PEC 241 /55. E sobre isso, não vimos nada na TV que corresponda a uma discussão séria e necessária. A tragédia do Chapecoense nos deixa tristes e consternados. A PEC nos afeta de modo infinitamente mais terrível e direto. Ela pode acabar com qualquer possibilidade de futuro para o país.

A canalha do congresso não está nem aí para esse papo de futuro do país. Se interessam única e exclusivamente pelo próprio futuro, onde possam manter todos os privilégios desonestamente conquistados – com a ajuda da TV, claro.

A solução apresentada pela PEC para os problemas da economia equivale a dizer que, para engordar, você deva parar de comer. Ou que para acabar com a lotação no transporte coletivo, os usuários devam emagrecer.

Congelar investimentos em setores básicos (e já tão comprometidos) como educação e saúde significa ancorar o país na miséria. E disso não poderemos escapar. Me tira o sono pensar, por exemplo, que minha caçula possa não chegar a um ensino superior público, gratuito e de qualidade. Ou que se ela precisar do serviço público de saúde, provavelmente estará em maus lençóis.

A quem essa PEC interessa? Aos mesmos de sempre. Preciso dar nome aos bois?

Esse papo de austeridade sobre os trabalhadores para resolver problema econômico é uma chacota. A solução do problema, grosso modo, é simples: ao invés de arrochar a geral, que tal cobrarmos impostos proporcionais às grandes fortunas? Taí algo que não vai acontecer facilmente, uma vez que os pilantras megabilhardários são os donos do congresso. E também das TVs.

Por isso não tenho TV em casa. Não quero ficar mais triste do que já estou com a tragédia do Chapecoense. E nem pretendo ficar mais desinformado do que já estou. Geralmente me considero um imbecil. Mas não a ponto de achar que as TVs trazem informação séria e criteriosa.

Enquanto as pessoas choram em solidariedade às famílias do Chapecoense, tem muito barão gargalhando.

 

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Márcio Júnior

Produtor cultural, Mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG - textos novos todas as sextas
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