Dois lados de uma mesma moeda

Publicado em 26.05.2017


Márcio Brom

Estou assustado com o Brasil. Não só pela pouca vergonha que vemos todos os dias. Não só pela extrema cara de pau com que nos deparamos nas autoridades. O delito está lá, igual nariz, na “cara”! E a pessoa insiste em falar que não é o “que estamos pensando…”. A impressão que dá é que, de repente, o muro começou a andar em cima do gato. Vamos por partes que tentarei resumir aqui em poucas palavras o que estou falando.

Com o avanço da operação Lava Jato, os políticos não estão sabendo como proceder. De delação em delação, não está ficando um em pé. Os que outrora batiam no peito a céu aberto e arrotavam honestidade, mas que na calada da noite todos nós sabíamos que agiam semelhantemente a mais baixa meretriz, estão sendo entregues um a um. E continuam batendo no peito… E continuam a insistir que as contas foram aprovadas… E continuam a querer provar que são perseguidos pelos inimigos.

Em seu livro mais famoso – 1984 –, George Orwell criou um neologismo que gosto muito: o DUPLIPENSAR. Isto é, pensar  de duas maneiras diferentes sobre o mesmo tema e ainda encontrar coerência nesse pensamento. Observem que isso acontece hoje.

O extremismo tomou conta do Brasil. Parece Fla x Flu. Coxinhas contra mortadelas. Tucano versus petralhas. Torcemos como se fosse uma partida de futebol. Às vezes, inclusive, esquecemos a racionalidade e partimos para o ataque, como se pessoal fora. Coloco aqui o meu mea-culpa, também ajo assim.

Na ultima quarta-feira, uma manifestação das centras sindicais – CUT e Força Sindical –, outrora inimigas, tomou conta de Brasília. Nada contra, muito pelo contrário. Posso discordar veementemente da pauta, mas gosto de viver em um país onde podemos discordar e conviver. Lembrou-me o filme “ O povo contra Larry Flint”. No julgamento final, Edward Norton, fazendo o papel do advogado, falou uma icônica frase:

– Não peço que vocês gostem de Larry. Eu mesmo não gosto de Larry, mas gosto de morar em um país onde temos esse direto. O direito de pegar a revista Hustler e apreciar ou jogá-la no lixo. Como bem entendermos.

É isso. Eu gosto de viver em um país que me dá esse direito de escolha. A manifestação democrática faz parte disso. Discordando ou não da pauta. Achando que é partidária ou não. Tenho que lutar pelo direito de opinar e manifestar minha opinião. O que aconteceu ontem não foi manifestação, foi baderna. Foi depredação do patrimônio público. Foi bagunça. Foi desordem.

Colocar fogo em prédios públicos é inadmissível. Depredar o patrimônio também. Você pode estar pensando agora: “foram poucas pessoas, foram vândalos que se infiltraram no meio do pessoal e fizeram o quebra- quebra”. E minha resposta será: sim! Com certeza, não representava a maioria, mas nem por isso foram menos danosos.

Ao praticarem tais atos, o presidente colocou o exército nas ruas, pois tanto a força nacional, quanto a PM não conseguiram conter os vândalos. Isso foi correto? Em minha opinião: SIM! É pra isso que serve a segurança nacional. E quem é contra eu devolvo a pergunta: o que fazer? Deixar pessoas morrerem queimadas? Serem linchadas por pensar diferente? Afinal como se ouviu esses dias: com facista se discute é na ponta do fuzil. Isso é democracia?

Esse é o exemplo do duplipensar que falei. Grandes partes das pessoas que criticam o presidente de colocar o exército nas ruas acham normal o exército nas ruas da Venezuela, atacando quem está contra o governo. Afinal, lá é governo de esquerda, então vale. Ou ainda acham um absurdo o que aconteceu aqui no Brasil na ditadura, afinal tiveram 485 desaparecidos (realmente um absurdo), mas acham normal 30.000 fuzilamentos em Cuba, segundo dados oficiais.

Não gosto do Temer. Não gosto do que está acontecendo. Tenho muito medo do que virá. Observem o seguinte panorama: temos um Brasil caótico, presidido por um vice fraco eque teve uma ruptura institucional um ano antes da eleição. Não estou falando de semana passada, estou falando de 1964. Viram a semelhança?

Ainda prefiro a mais difícil democracia à mais fácil das ditaduras. Pois podemos nessa ter paz, mas é uma paz sem voz e paz sem voz não é paz é medo.

Um abraço e até mais. Se Deus quiser.

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Márcio Brom

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Márcio Brom é professor de química, master coach e cursou Enviromental Chemistry na Columbia University
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