DOUTOR ESTRANHO: DIVERSÃO PSICODELICAMENTE DESPRETENSIOSA

Publicado em 04.11.2016


Acabo de chegar do cinema. Nos últimos anos, esse momento se tornou muito mais raro do que eu gostaria – ainda que, entre outras coisas, eu seja cineasta.

Quem tem filho pequeno sabe do que estou falando: ir ao cinema é uma operação de guerra. É um tal de deixar criança com os avós, ficar atento ao celular, não tirar o olho do relógio, cronometrar a diversão.

Hoje foi diferente. Quando convidei minha esposa para irmos para a trincheira de luz, ela preferiu declinar – enquanto assinava a carta de alforria. Os motivos? Trabalho e o filme escolhido: Doutor Estranho. Super-herói.

Não a condeno. Ela não passou a infância e adolescência lendo gibi da Marvel. Mas tenho certeza que teria se divertido um monte com esse novo blockbuster. Afinal de contas, é pra isso que servem os super-heróis.

O Dr. Estranho é um personagem de segunda divisão na editora do Homem-Aranha. Foi criado em 1963 pelos mesmos Stan Lee e Steve Ditko que deram vida ao Cabeça de Teia no ano anterior. Ou seja, para muita gente, este será o primeiro contato com o “Mestre das Artes Místicas”. É um ótimo começo.

Há mais de uma década, as adaptações de quadrinhos de super-herói têm sido a galinha dos ovos de ouro da indústria cinematográfica norte-americana. É uma constatação, sem nenhum juízo de valor. Ano após ano, basta conferir a lista das maiores bilheterias: os supers estão sempre no topo das paradas, em filmes milionários, movidos por ações de marketing ainda mais milionárias.

131081-224203-doutor-estranhoNão deixa de ser pitoresco pensar que grande parte da indústria do entretenimento mundial esteja hoje baseada nas ideias e concepções criadas nos anos 1960 por três caras em suas pranchetas carcomidas por traças: Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko. E o sucesso dos filmes da Marvel se baseia justamente na fidelidade com que captam a essência do trabalho dessa tríade sacrossanta da cultura pop.

Quando a Marvel surgiu, a indústria dos quadrinhos norte-americanos passava por maus bocados. Era um ramo editorial pequeno, infantilóide, desprestigiado. Em uma cartada final antes de abandonar o barco, Lee resolveu fazer os gibis como gostaria que fossem.

Os personagens não mais viviam em cidades fictícias. Tampouco eram perfeitos. Os heróis Marvel eram falíveis e enfrentavam problemas mundanos. E toda ação tinha uma consequência “lógica e plausível”. Isto é, se numa HQ do Quarteto Fantástico Nova York havia sido destruída por um vilão, era provável que o Capitão América trombasse com os escombros em outro gibi.

Stan Lee era um craque do drama folhetinesco. Mas seu verdadeiro talento sempre foi se cercar dos melhores artistas do pedaço. Jack Kirby trouxe um dinamismo e senso de grandiosidade inauditos para os quadrinhos mainstream. De seu lápis frenético (dizem as lendas que chegou a desenhar 80 páginas em um mês) nasceram Capitão América, Hulk, Thor, Homem de Ferro, X-Men, e toda uma infinidade de personagens que agora fazem a alegria dos altos executivos da Disney – atual proprietária da Marvel.

Ditko, por sua vez, foi o artista que deu vida ao Homem-Aranha e ao Doutor Estranho. Não é pouca coisa. Se o Aranha era o principal personagem da editora, o Mandrake anfetaminado tornou-se uma febre cult para a juventude universitária Flower Power.

O Doutor Estranho é, na verdade, o arrogante e prepotente cirurgião Stephen Strange. (Parece até um médico goiano. Só que sem fazenda.) Após um grave acidente de carro, o Dr. perde a habilidade com as mãos, o que o coloca numa busca obsessiva por sua cura. Nessas, vai para o Oriente onde se envolve com uns magos da pesada, acaba se tornando um deles, ganha um cadinho de humildade e passa a defender o planeta Terra de perigos místicos.

Os hippies enlouqueceram. Doutor Estranho não era herói de resolver suas broncas na porrada. Com ele o lance eram as viagens místico-interdimensionais. E era aí que Steve Ditko deitava e rolava, bolando criaturas e universos pra lá de psicodélicos. Não foi à toa que o primeiro festival de rock doidão da Califórnia se chamou “Tributo ao Dr. Estranho”.

Gene Simmons, o linguarudo baixista do KISS, afirma ter criado o sinal do heavy metal (aquela posição dos dedos que emulam os chifres do tinhoso) baseado nas mãos que Ditko desenhava quando o herói conjurava seus encantamentos. Provavelmente não foi Gene quem criou o símbolo do metal – tá mais pro italiano Ronnie James Dio. Mas confere lá na capa do álbum Love Gun pra ver se a mãozinha do Demon não é a mesma do Estranho.

Cheguei ao cinema com a expectativa moderada, buscando apenas um filme de super-herói que honrasse as deliciosas aventuras que li quando moleque. Sem carteirinha de estudante, tive que deixar um rim na bilheteria. Valeu a pena. Doutor Estranho, o filme, traz toda o clima das HQs de Lee e Ditko.

Está tudo lá. O médico arrogante, a jornada em busca da recuperação de suas hábeis mãos cirúrgicas, Wong, o Olho de Agamotto, o Manto da Levitação, o Santuário, Dormammu. Se você não sabe o que é nada isso, melhor ainda.

Os puristas vão chiar. Mordo, personagem clássico dos gibis, agora é negro. O Ancião, Mago Supremo do Universo e tutor de Strange, agora é “a” Anciã, interpretada pela queridinha do finado Bowie, Tilda Swinton. Bobagem de nerd. O que vale é que a alma da HQ está muito bem preservada.

Os efeitos especiais são um espetáculo à parte. A arquitetura distorcida pelos encantamentos é um híbrido de A Origem (filme de Christopher Nolan de 2010) e H.P. Lovecraft. O Reino da Escuridão (ou algo que o valha) é puro Steve Ditko – inclusive nas cores fluorescentes que faziam a cabeça dos hippies nos pôsteres do Doutor Estranho vendidos em head shops sessentistas. Coisa linda. Mesmo a música incidental investe em sonoridades mais exóticas, se afastando do rame-rame orquestrado e grandiloquente, tão típico de Hollywood.

Não é exagero dizer que os heróis Marvel salvaram a combalida indústria dos comics na década de 60. A caudalosa energia injetada por Lee, Kirby e Ditko segue crepitando. Reside aqui o toque de midas da Marvel Studios: botar nas telas, em orçamentos mastodônticos, o clima desses antológicos, divertidos e despretensiosos gibis.

Se os quadrinhos atuais da Marvel e DC, de um modo geral, são uma tolice pseudo-adulta, é no cinema que os super-heróis têm oferecido o que o gênero traz de melhor: leveza, grandiosidade e imaginação desvairada. Doutor Estranho é um belo exemplo: diversão psicodelicamente despretensiosa. Com a mente turbinada, deve ficar ainda mais saboroso. Pretendo realizar a experiência. (Se minha mãe ajudar com as crianças, claro.)

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Márcio Júnior

Produtor cultural, Mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG - textos novos todas as sextas
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