ENTREVISTA: 17 de maio e os desafios que estão para além do Dia Nacional de Luta contra a Homofobia

Publicado em 17.05.2017


ENTREVISTA  GUNAR OLIVEIRA – FILÓSOFO E MILITANTE LGBTQI+

Lillian Bento

Filósofo, DJ, moreno, alto, barbudo, cabelos cacheados, sexy e … muito maquiado, meu amor! É assim que muitas vezes Gunar Oliveira, 30 anos, anda por aí, exibindo um corpo desejado, um coração caliente e uma mente inquieta. Mais que um militante e estudioso das questões de LGBTQI+ ele é a própria personificação da revolução sexual. Em apenas cinco minutos de conversa você vai  amar ou odiar o moça (não, isso não foi um erro gramatical. Continue a leitura). Trata-se daquele conhecido sentimento de ame-o ou odeia-a, isso porque algo que ninguém jamais poderá fazer é ignorar ou ser indiferente a Gunar. Ela, ele, elx incomoda muita gente, causa demais,  seduz e, principalmente, luta pelo direito de seguir seu caminho e ser respeitado. Por isso, nesse 17 de maio – Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia – O Que Rola procurou a rapaz para falar de desafios, respeito, gênero e sexualidade. E, cuidado! A entrevista é polêmica.

Porém, antes de começarmos vale a pena lembrar que 17 de maio foi escolhido por marcar o dia em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o termo “homossexualismo” da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID).  Ser gay deixou de ser considerado uma doença, mas parece que quem adoeceu foi a própria sociedade e os casos de homofobia se multiplicam.  Uma intolerância que  quer enquadrar as pessoas, guardá-las em caixinhas, como se a identidade fosse algo fixo. Não é.

E.. esse é Gunar Oliveira. Foto: Facebook.

Como já disse, o assunto é polêmico, mas a entrevista é deliciosa, então, te prepara ‘beesha’ que a homofobia ou qualquer outra manifestação de desrespeito aqui não tem lugar.

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Inês Brasil dá o tom: Alô, Alô, Graças a Deus!

 

O QUE ROLA: Desde que a Organização Mundial de Saúde deixou de considerar a existência do “homossexualismo”, em 1990, até os dias atuais, quais os principais avanços na luta contra a homofobia?

GUNAR: Primeiro preciso pontuar que me assumi socialmente como homossexual, há seis anos,  e hoje me identifico com uma identidade  Queer (Diabéisso!? Clique aqui para saber mais), não-binário, ou seja, desde passei a flexibilizar a questão de gênero e não me compreender apenas como gay. É importante dizer isso porque eu percebo que a sociedade não tem preparo para lidar com transições nem dentro dos gêneros já instituídos, sendo eles binários: de homem para mulher/mulher para homem. Ainda assim, consigo enxergar alguns avanços no que diz respeito à visibilidade, por exemplo, quando hits de drags ou de travestis ganham espaço no cenário da música nacional como quando no carnaval Pablo Vittar, cantora e compositora drag queen brasileira, tocou no trio elétrico da Ivete Sangalo. Quando um desses vídeos tem 64 milhões de views ou mais isso sim é visibilidade. Claro que tudo isso está muito atrelado ainda ao poder midiático, à novelas ou séries que abordam a questão. Mas já parte importante da luta contra a homofobia.

OQR: E qual é, então, o principal entrave para um avanço efetivo das questões LGBTQI+ dentro da sociedade em que estamos inseridos?

GUNAR: O grande problema é que os termos, conceitos e símbolos que são legitimados nessa sociedade são cristãos, helenistas e hebraícos. Explico. São cristãos porque ignoram o corpo e suas manifestações. Helenistas porque trabalham com uma moral binária e maniqueísta e hebraícos porque ainda compreendem o gênero enquanto genital, tal qual a Gênesis, da Bíblia, em que Deus primeiro cria o conceito de gênero e depois cria Adão e Eva, atribuindo ao primeiro a função de produzir e a segunda a função de gerar, carregar o filho. Disse depois: crescei e multiplicai-vos! Então, a mulher trans que não tem o gênero atrelado ao genital ainda sofre com esses conceitos que não permitem romper com esse binarismo e com o patriarcado que existe nisso tudo e não considera as pessoas LGBTQI+. Nesse ponto, Simone de Beauvoir é importante quando diz “não se nasce mulher, torna-se mulher”. E torna-se cada vez mais e em diversos momentos, como quando em uma propaganda de produto de beleza, a mídia dita o que é um determinado comportamento feminino. E, não se enganem, todas passam por isso seja trans ou cis (Cis? Clica aqui, vai, tá explicadinho).

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OQR: Quando você pensa na sua trajetória como Queer, a homofobia e a falta de compreensão provocam muitos transtornos?

GUNAR: Sim. Atrapalham a viver. Há pouco tempo passei por uma crise de pânico e tal qual na animação infantil Divertidamente, em que cada emoção tem uma parte da central de controle cerebral, todos os meus sentimentos resolveram apertar os botões ao mesmo tempo. Demorei uns quatro meses pra acalmar essa galera dentro da minha cabeça (risos). Isso porque o que vivo é uma revolução, uma revolução pessoal,um caminho que não encontra respaldo em nenhuma das instituições dessa sociedade binária. É um caminho solitário. Você se torna algo tão diferente, que a sua identidade de gênero passa a ser o próprio processo. Eu não descanso em lugar nenhum porque rompi com essa racionalidade hebraica, grega e cristã e não sei onde vou chegar, meu gênero é a caminhada em si. Isso se torna dolorido porque não há um respaldo, uma compreensão. Há até quem diga que é frescura e uma afronta a moral. Isso porque a própria ideia de moral vem de moradia e eu sou um andarilho, não desejo encontrar uma morada para descansar, ou seja, não desejo ter uma identidade de gênero fixa.

OQR: Diante do cenário atual, a comunidade LGBTQI+ pode ter esperança?

GUNAR: Acredito que as mudanças atuais, que já assustam as camadas mais conservadoras da sociedade, são parte de  um presságio, um arauto da grande revolução sexual que virá. E eu falo revolução porque não acredito em reforma, afinal não dá para dialogar com aquilo que quer te matar, com um modelo que não te aceita. É um absurdo a gente pensar que falamos em transgêneros há séculos e só agora, em 2017, temos notícias de pessoas trans entrando na universidade, ganhando espaço e isso, ainda, em camadas restritas dessa sociedade. Esse modelo atual tem medo dessas mudanças porque ele se tornaria obsoleto. As leis não estão preparadas, as escolas se tornam arcaicas, mas essa sociedade sabe que as flexibilizações de gêneros são imprevistas e incontroláveis. Por isso já não basta um dia de luta contra a homofobia porque sabemos que o processo é bem mais complexo. Por exemplo, lembra do sinal de + que existe na frente da sigla LGBTQI? Então, ele é muito importante porque não existe sigla capaz de dar conta da diversidade de gêneros. Estamos falando de algo infinito.

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Gunar Oliveira. Foto: Instagram

E, claro, que essa entrevista teve trilha musical. A Gunar fala da música de Pabllo Vittar, que cantou no trio elétrico de Ivete Sangalo e estourou na mídia em 2015 quando lançou o videoclipe Open Bar. Pois bem, clica ai, porque ela arrasa! E que a luta contra a homofobia transforme essa sociedade em um espaço de maior tolerância e respeito.

 

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