MINHA MPB: MAIS ÓDIO QUE AMOR

Publicado em 23.09.2016


Minha relação com a MPB é, no mínimo, contraditória. Às vezes, amo. Geralmente, odeio. Boa parte desse ódio não está relacionado à música propriamente dita, mas à maneira como são sacralizados os medalhões do estilo. A ideia do sagrado sempre me pareceu atrasada, conservadora, autoritária e assustadora. Bolsonaro e João Campos são fantasmas que me assombram cotidianamente.

Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque são patrimônios da tal Música Popular Brasileira. E provavelmente seus maiores algozes. Vacas sagradas. Experimente criticá-los pra ver o que acontece. (Obviamente, não vale xingamento de petralha ou comunista – como se isso fosse uma ofensa. Qualquer consideração vinda de um coxinha é destituída de razão e senso crítico. Portanto, não merece entrar na conta).

Odeio Caetano Veloso. Entendo perfeitamente sua importância para a música brasileira. Momentos geniais – geralmente paridos quatro décadas atrás. De lá pra cá, um pastiche de si mesmo. Se a coisa aperta, junta um molecadinha nova e descolada pra bancar o cool. Engana muita gente. Mas nada vai apagar a Tieta.

Quando o Lula, em seu primeiro mandato, escolheu o Gil para encabeçar o ministério da cultura, eu logo pensei: “lascou”. Queimei a língua. Boa parte dos avanços que ocorreram na produção cultural brasileira começaram ali, sob seu olhar baiano. Nada que um golpista não possa destruir em meses – sob o aplauso das antas que acreditam ser a lei Rouanet o que mantém a ligação dos artistas com o governo eleito e golpeado. Musicalmente, no entanto, Gil é como seu conterrâneo: uma caricatura do que foi no passado.

Gosto do Chico Buarque. Não é vaidoso, não gosta de aparecer, não emite opinião sobre qualquer coisa. Demora séculos a lançar um disco, praticamente não faz shows. Publica seus livros. Não enche o saco. Mas também não se esconde. Peito aberto contra a farsa do “impeachment”.

Politicamente, nas macro questões, as vacas sagradas nunca me decepcionaram. Na hora H, sempre estiveram do lado democrático. Musicalmente é que são elas. Sempre que penso em Caê, Gil e Chico, uma incômoda comparação com David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop me vem à mente. Estamos mal na fita.

Um outro aspecto me incomoda em relação a Gil e Caetano. Através de sua poderosa influência (já ouviu falar na “máfia do dendê”, caro leitor?), terminaram por solidificar a Tropicália como um marco na música do Brasil. Eu concordo que é. Mas não o único. E mais: a Tropicália não se restringe aos dois, como se esforçam tanto em nos fazer crer. Não fosse por sorte ( = David Byrne), Tom Zé teria sido varrido da nossa memória. Como vem acontecendo com todos os cantores da Era do Rádio – vide o gigante Nelson Gonçalves, 70 milhões de discos vendidos e praticamente apagado do imaginário das novas gerações.

Nos anos 90, toda uma geração do rock brasileiro – a melhor, na minha opinião, formada por bandas do calibre de Planet Hemp, Raimundos, mundo livre s/a, Ratos de Porão e Sepultura – deu uma banana para essa MPB anacrônica e institucionalizada. Mas a “máfia do dendê” virou o jogo. Hoje, os jovens roqueiros – leia-se nova MPB – tremem de frisson diante da possibilidade de beijar a mão dos painhos.

Quando me deparo com essa nova MPB, me sinto meio enjoado. Tudo me parece uma reciclagem daquilo que já foi feito. Só que sem gás, sem tesão, sem fúria. Um bando de cantoras novas, bonitinhas – algumas nem tanto –, trejeitos indie. Não passam de uma cópia insossa da Marisa Monte – que já era uma cópia insossa (e meticulosamente calculada) da Gal.

Exceções? Claro que existem. Karina Buhr. Karine Alexandrino. Mas são exceções. E como tal, confirmam a regra.

Hoje, em Goiânia, é dia de celebrar uma outra MPB. Sobe ao palco do Centro Cultural Oscar Niemeyer Elza Soares, a mulher do fim do mundo. Nunca ouvi seus álbuns com a devida atenção. Mas por mais que pareçam querer silenciá-lo, seu grito primal é identificável a quilômetros de distância por qualquer um que não seja surdo e ainda preserve alguma alma.

Elza é a anti-Marisa Monte, a anti-Ivete. Nunca foi agraciada com as bênçãos da MPB que rescende a acarajé. Pelo contrário, comeu o pão que o diabo amassou. Atravessou a vida com o microfone em uma mão e a navalha na outra. E sabe, como ninguém, que a carne mais barata do mercado é a carne negra.

 

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Márcio Júnior

Produtor cultural, Mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG - textos novos todas as sextas
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