Nerielson Rodrigues e o Bejo no asfalto

Publicado em 17.03.2017


Com os olhos marejados e o peito arfante, Benjamin Pessoa se encontrava naquele instante sobre o parapeito do Eixão no cruzamento com o Eixo Monumental na cidade de Brasília. Ali no ponto nevrálgico do plano piloto. Ele olhou para baixo por diversas vezes se imaginando estirado no asfalto quente da capital. O suor lhe escorria pela testa e instintivamente retirou do bolso interno do paletó, feito sob medida para sua posse, um lenço para estancar o suor teimoso. Notou de relance o monograma bordado à mão no lenço branco. “Bejo”. A alcunha por que era conhecido. Apelido dado pela mãe que não conseguia pronunciar corretamente o nome do filho. Recordou-se do quanto seu nome diferente lhe atrapalhou quando criança. Onde já se viu uma criança que nasce em Umbuzeiro na Paraíba com esse nome estranho. Benjamin. Tudo por conta do Seu Francisco Pessoa. Seu pai. Parente distante do político João Pessoa e orgulhoso de ser conterrâneo do estopim da Revolução de 30, Seu Francisco era fascinado por Getúlio Vargas. O pai dos pobres como sempre dizia. Tinha até retrato do Presidente na sala de jantar da família Pessoa. E o pai sempre olhava para a foto antes de iniciar as refeições. Como se pedisse permissão ou agradecesse pela comida que estava nos pratos da família. Quase um Deus. Quando nasceu seu primogênito, Seu Francisco até pensou em batizar o menino de Getúlio, mas achou petulância muita. Escolheu Benjamin. O nome do irmão de Getúlio. Mal sabia ele que o mesmo Benjamin, o irmão do Presidente, seria um dos pivôs de seu suicídio. Depois do fato, no caso o suicídio, o pai adoecera. Definhara. Perecera. Ele, Benjamin Pessoa, Jurara sob a lápide do pai, ingressar na carreira política e chegar à altura do Presidente morto. O Presidente que havia matado seu pai. E assim ele fez. Vereador, Deputado Estadual, Deputado Federal e agora Senador da República. O cargo mais alto do Poder Legislativo. Mandou fazer terno em São Paulo para a posse. Alinhavado sob medida. Coisa chique. Coisa de Senador. Foi eleito pelo PUT. Partido da União Trabalhista que ele ajudou a fundar. Foi voto vencido na escolha do nome do partido. Achava indecoroso. Mas a democracia é assim mesmo. A maioria manda. Ele mesmo se consolava. Era um partido alinhado com o governo, mas Benjamin era osso duro de roer. Geralmente perdia para a maioria do Partido, mas não omitia suas convicções. Foi então, o PUT, agraciado até com uma Diretoria da Petrobrás. DROGA. Diretoria Regional de Garagens e Alimentação. Indicou um primo da Paraíba que era de carreira do órgão, mas a maioria escolheu um sobrinho do Presidente do Partido. O sobrinho era manobrista e bom de garfo. Tinha experiência com garagens e alimentação comprovada. Ele mesmo se consolava. Depois disso o Partido dera um salto nas campanhas eleitorais. Apareceu dinheiro de todos os lados. Parte desse recurso foi utilizado em sua campanha. Dinheiro limpo dizia o Presidente do PUT. Dinheiro não tem pátria. Ele se consolava. Pois agora sobre o parapeito, Bejo não conseguia se consolar. Suava e chorava sob o sol escaldante do Planalto Central. Num átimo de segundo lembrou-se do pai que lhe batizara, da mãe que lhe apelidara e de Getúlio que o encorajara. Se até mesmo ele, o Presidente, fez, porque eu não poderia? Abriu os braços e se jogou para também entrar para História.

Com os olhos marejados e o peito arfante, Nerielson Rodrigues da Silva se encontrava naquele instante trafegando pelo Eixo Monumental no cruzamento com o Eixão na cidade de Brasília. Ali no ponto histórico da cidade. Ele olhou para a antiga Rodoviária e lembrou-se de sua mãe. Não perdia as esperanças de reencontrá-la naquele lugar. Provavelmente ela já estaria morta, mas ele não perdia as esperanças. Isso o alimentava. Ela o deixara sozinho com o pai e cinco irmãos na cidade goiana de Faina. Fugiu com o açougueiro da cidade. A mãe dizia sempre que um dia o faria. Não com o açougueiro. Mas dizia. E Brasília era seu destino. Nutria uma paixão doentia pela cidade. Recortava fotos de revistas e colava em um álbum. Guardava o álbum na parte de cima do armário junto com os livros de Nelson Rodrigues. Tinha todos. Juntava um trocado e comprava. Amava o escritor e sua indecência. Dizia que Brasília era pecaminosa como Nelson. Por conta dessa obsessão quis batizar o filho caçula de Nelson. O marido recusou. Onde já se viu colocar o nome de um pervertido no meu filho? Vamos colocar o nome do avô. Nerielson. A mãe riu por dentro. Concordou com a condição de ser acrescentado o nome Rodrigues no menino. O pai questionou que isso era sobrenome. Ela insistiu. Ele cedeu. Batizaram assim. Um quase homônimo. Como sua mãe escondia os livros de Nelson, Nerielson atiçou por ler. Subia numa cadeira e tirava de cima do armário. Leu todos. Cultivou a mesma paixão da mãe. Mudou-se para Brasília quando o pai morreu. Desgostou de ser trocado pelo açougueiro. Arrendou uma pequena chácara no entorno do Distrito Federal e entrou no ramo de hortifrúti. Virou vegetariano, mas entrava em todos os açougues que via. Às vezes encontrava a mãe em um deles. Ele se consolava. Por conta de um contrato grande de fornecimento de folhas e verduras que fechou com uma tal Diretoria Regional de Garagens e Alimentação da Petrobrás, comprou um caminhãozinho novo. Estava progredindo. Só não entendia a relação que tinha garagem com alimentos e nem o que esse povo fazia com tanto alface e rúcula. Dava quase para alimentar o país inteiro. Devem ser todos vegetarianos. Ele mesmo se consolava. Mas contrato é contrato e Nerielson era cumpridor de seus compromissos. Escritos ou no fio do bigode, apesar dele ser desprovido de pelos faciais. Pois agora estava ele olhando a procura da mãe no tal cruzamento de eixos quando percebeu de soslaio um vulto cair do céu bem na frente de seu caminhão carregado de alface. Deu um golpe na direção e foi catando mamona, como dizem no Faina, até estabacar o veículo no meio da pista. Foi caixa de alface para todo lado. Ainda atordoado com o acidente, tirou o cinto de segurança e correu para ver o que tinha caído e provocado o infortúnio. Assim que se afastou do veículo tombado, alguns passantes logo começaram a carregar as caixas caídas da carga que levava, mas quando viram que se tratava de alface logo desistiram. Se fosse ao menos cerveja! Nerielson foi se aproximando do local da quase colisão pensando que era motorista batuta. Poucos teriam conseguido se desviar daquele jeito. As pessoas já se acumulavam em volta do corpo que parecia de uma figura importante dado as vestimentas grã-finas. Formou-se uma roda em volta, mas ninguém com coragem suficiente para se aproximar. O trânsito já estava um caos completo quando Nerielson conseguiu chegar perto do sujeito caído. O corpo todo desconjuntado demonstrava que havia quebrado muitos ossos. O terno bem cortado e o broche do Senado demonstravam que era gente graúda. O sangue que escorria pelo asfalto quente demonstrava que a vida se esvaia. Foi quando o agonizante homem em seu último lampejo de força pediu que ele se aproximasse. Provavelmente o moribundo queria dizer as últimas palavras. Nerielson se aproximou e por um milésimo de segundo imaginou já conhecer aquela cena de algum livro que tinha lido escondido da mãe. Mas era tarde demais para recuar e enquanto descia o rosto fechou os olhos e se preparou para o beijo. Foi então que Bejo lhe sussurrou ao ouvido em seu último ar: “Acho que estou na lista do Janot”. Fechou os olhos e então partiu para o descanso eterno. Ou não.

* Os fatos aqui narrados são ficção. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

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Guilherme Santana

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Engenheiro por formação e Coveiro de coração
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